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"A reciclagem veio transformar o lixo em recursos"

Como vamos de reciclagem? Portugal tem sido “bom  aluno” da sustentabilidade? Ana Trigo de Morais, da Sociedade Ponto Verde, responde em entrevista.

  • Texto
  • Ricardo Nabais e Nuno César
03 dezembro 2020
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  • Ricardo Nabais e Nuno César
Ana Trigo Morais

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Ecodesign, é esta a nova palavra de ordem da sustentabilidade. O que quer dizer? Significa que as embalagens devem ser concebidas, de origem, para durar mais tempo. E que possam ser, depois, devidamente recicladas. Os consumidores portugueses estão cada vez mais atentos ao problema do ambiente e parecem dispostos a mudar comportamentos, defende ainda Ana Trigo de Morais, que responde a quatro perguntas sobre esta e outras matérias verdes.   

Fala-se muito hoje em produzir embalagens que tenham maior tempo de vida e possam ser reutilizadas ou recicladas. Que exemplos temos em Portugal?

Felizmente já existem muitas embalagens no mercado que incorporam os princípios da ecoconceção (também designada design for recycling) no seu fabrico, e, na maioria dos casos, o consumidor nem sequer se apercebe desta característica. A título de exemplo, temos já várias embalagens “amigas” da reciclagem: garrafas de vidro nas quais os rótulos e as cápsulas são compatíveis com a reciclagem do vidro, sendo facilmente separados da garrafa no momento da reciclagem e escoados para valorização específica; caixas de cartão feitas integralmente de fibra celulósica, sem adição de plásticos ou outros revestimentos que possam dificultar a reciclagem do cartão; garrafas ou frascos de plástico cuja conceção foi pensada de forma harmoniosa com o rótulo e a cápsula e cuja forma minimiza a presença de produto no interior, quando vazias. E ainda latas metálicas integralmente constituídas por um tipo de metal (todas em alumínio, por exemplo). Mas há muito que ainda pode ser feito. Todos os anos chegam novas embalagens ao mercado, e o conceito do design for recycling deve fazer cada vez mais parte do dia-a-dia dos fabricantes de embalagens e dos embaladores. Aliás, um dos fatores para a maximização da reciclagem é poder disponibilizar à indústria embalagens fáceis de reciclar que tenham sido separadas pelos consumidores para os circuitos de recolha seletiva local. Consciente da necessidade de difusão das boas práticas neste campo, a Sociedade Ponto Verde (SPV) criou já há quase dois anos o projeto Ponto Verde Lab, uma plataforma digital para a promoção dos princípios da prevenção na conceção de embalagens e geração de resíduos. Esta plataforma é hoje um repositório único de conhecimento técnico e científico em língua portuguesa e tem como destinatários todos os agentes da cadeia de valor das embalagens.

Por outro lado, ainda há muitas embalagens de plástico de uso único. Como podemos convencer as empresas a reduzir estes produtos?

Há um conjunto de produtos plásticos que fazem parte da diretiva SUP [single use plastics, ou plásticos de utilização única], relativa à redução do impacto de certos produtos de plástico no ambiente, e que são os plásticos mais recorrentemente encontrados na análise ao lixo marinho. Falamos de cápsulas ou tampas, embalagens de comida, cotonetes, garrafas de bebidas, toalhitas, sacos de plástico, entre outros. É natural que na transposição da diretiva europeia dos plásticos de uso único para a legislação nacional existam alguns produtos que acabem por ser descontinuados, enquanto para outros exista um esforço no sentido da redução do seu consumo. Os materiais existentes cumprem diversas funções, e na substituição de um material por outro é, de facto, importante que seja feito um grande investimento em investigação, inovação e desenvolvimento para que se encontrem soluções adequadas. As empresas têm investido bastante nestas áreas de forma a dar resposta às questões relacionadas com o impacto ambiental e às atuais exigências do consumidor, que está hoje muito mais atento à sua pegada ecológica. Embora as empresas possam apostar nesta substituição do plástico, acima de tudo é essencial que participem na missão de sensibilizar o consumidor para temas como o desperdício e a reciclagem, independentemente de estarmos a falar em plástico ou outro material. Na verdade, tanto o papel como o plástico são altamente recicláveis, daí a importância na escolha do material para a embalagem que melhor se adapte ao produto e à sua pegada ambiental.

E como podemos ajudar os consumidores a identificar uma embalagem mais amiga do ambiente?

Nesta área, a SPV tem desenvolvido um trabalho com as empresas suas clientes,  promovendo nas embalagens mensagens de incentivo à reciclagem junto dos consumidores. É ainda importante termos em conta que as boas práticas em matéria de economia circular recomendam não só maior atenção ao tipo de material de embalagem, mas também ao comportamento do consumidor. Ao olharmos para o caso concreto do plástico, todas as embalagens podem ser recicladas, se devidamente colocadas no ecoponto. Daí a importância em garantir que os cidadãos colocam as embalagens de plástico no ecoponto amarelo. Foi com este objetivo que a SPV lançou uma nova iconografia de reciclagem que procura levar as marcas a ajudar o consumidor na hora de fazer a separação de resíduos. Além da indicação em que ecoponto deve ser colocada, cada embalagem tem indicações precisas, que explicam de forma detalhada como reciclar corretamente. Estes novos ícones podem agora ser aplicados pelas empresas ou marcas que têm por objetivo contribuir para a promoção de mais e melhor reciclagem e, para tal, podem contar com o apoio técnico e especializado da SPV na transição para esta iconografia. Os consumidores podem ainda pesquisar na plataforma do projeto Ponto Verde Lab os critérios que determinam uma maior reciclabilidade das embalagens.

O mercado português de reciclagem de plásticos está preparado para estas mudanças?

Portugal possui uma indústria de reciclagem de plásticos forte e competitiva, que tem acompanhado a evolução do setor desde o início da atividade da SPV. Sabemos que a inovação tecnológica é uma constante, pelo que acreditamos que os maiores desafios da indústria estão relacionados com a colocação das matérias-primas de reciclagem em destinos finais de igual ou maior valor acrescentado, e não tanto com o acesso aos resíduos para reciclar. A nossa economia vai mudar ao ficar mais circular e, consequentemente, também mais sustentável. É natural que os nossos hábitos de consumo também se alterem, pois temos de reduzir a intensidade do consumo de matérias-primas virgens. Além de que, se as políticas públicas o promoverem, a realidade será cada vez mais a de aumentar a incorporação de materiais reciclados em múltiplas aplicações, algumas muito para além da embalagem. A reciclagem veio transformar o lixo em recursos, promovendo a valorização de materiais que eram tidos como inutilizáveis depois do consumo. Portanto, o contributo da reciclagem é bastante positivo. Por um lado, veio espoletar a procura por materiais com uma maior taxa de reciclabilidade e, por outro, contribuiu para que os processos de economia circular sejam efetivos, com os materiais a serem integrados e reintegrados na cadeia de valor com diferentes utilizações. 

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