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Embalagens: rumo a um sistema de depósito

O projeto-piloto Do Velho se Faz Novo pôs dezenas de máquinas de recolha de embalagens PET nos hipermercados. O consumidor era premiado se lá colocasse garrafas de plástico. Os resultados foram bons e antecipam um sistema de depósito no futuro.

  • Dossiê técnico
  • Fábio Aparício
  • Texto
  • Ricardo Nabais e Alda Mota
14 dezembro 2021
  • Dossiê técnico
  • Fábio Aparício
  • Texto
  • Ricardo Nabais e Alda Mota
embalagem pet

iStock

Situada estrategicamente dentro de uma grande superfície comercial, uma máquina prometia recolher garrafas de plástico vazias e dar uma recompensa, vales de desconto em compras a realizar no hipermercado aderente. Tratava-se de um projeto-piloto de incentivo para a recolha de garrafas PET (as que abrigam refrigerantes ou água, por exemplo), desenvolvido em três fases, e tinha como finalidade perceber a adesão dos consumidores a este sistema, desenvolvido para aumentar a quantidade e a qualidade de embalagens que seguem para reciclagem. Os valores eram diferentes consoante o tamanho da embalagem. Para as garrafas de 0,1 litros a 0,5 litros, o prémio era de 2 cêntimos por unidade e, para capacidades entre os 0,5 litros e os 2 litros, o valor fixava-se em 5 cêntimos por embalagem.

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Os resultados superaram as expectativas: entre março de 2020 e setembro de 2021, foram recolhidos mais de 16 milhões de garrafas em todo o território continental. Na primeira fase, entre o início do projeto e janeiro de 2021, o sistema contemplava a recompensa ao consumidor. Na segunda, entre fevereiro e março de 2021, o valor do incentivo passou a ser atribuído a instituições de solidariedade selecionadas. Já a terceira fase, de março a setembro de 2021, consistiu apenas na recolha, sem quaisquer sistemas de incentivo.

Mas, quando os incentivos ao consumidor desapareceram, a contribuição da entrega das garrafas nas máquinas diminuiu. Ainda assim, o esforço traduziu-se em 472 toneladas de plástico para reciclagem. Nada mau.
O projeto não procurava substituir o sistema de recolha seletiva destas garrafas nos milhares de ecopontos amarelos espalhados por todo o território. Surgiu da necessidade de cumprir metas cada vez mais ambiciosas quanto a este tipo de plástico. Os ecopontos continuam a funcionar como sempre, o que se pretendia era acelerar a taxa de recolha de plástico e envolver as pessoas que ainda não fazem a separação.

A ideia, para um futuro próximo, é simples: transformar este sistema num outro, de depósito de garrafas. Se está numa faixa etária respeitável, deve recordar-se de um sistema que vigorava ainda antes de se falar em reciclagem, que consistia na cobrança de uma taxa pela compra de garrafas de vidro, que era recuperada mediante a entrega dos vasilhames ao vendedor onde haviam sido comprados.  

O que poderá acontecer em 2022?

O que se prepara é um sistema semelhante, mas com embalagens de plástico PET, de metal (como as latas de conserva, por exemplo) e de vidro. O sistema de depósito ainda está a ser trabalhado pelo Governo, pelo que, com toda a certeza, não será implementado na data prevista (janeiro de 2022) e muito dificilmente ainda no próximo ano. Na prática, assim que o sistema de depósito esteja em vigor, sempre que o consumidor compre um produto que venha numa embalagem de uso único de plástico PET, metal ou vidro, irá pagar um determinado valor (ainda não definido), que será respeitante à tara. Após a utilização do produto, poderá recuperar o valor, ao depositar a embalagem nas máquinas destinadas para este fim, tal como aconteceu durante o projeto-piloto. Mas, atenção, ao deixar a embalagem no ecoponto, como tem feito até agora, não irá recuperar o valor da tara.

E, sem incentivos, o sistema terá mesmo pernas para andar? Ganhará a adesão dos consumidores? Falámos, a este respeito, com a Sociedade Ponto Verde (SPV), a principal entidade gestora de embalagens em Portugal e participante no projeto-piloto, responsável por 17 das 23 máquinas usadas em todo o País. E perguntámos, diretamente, se a falta de um incentivo não iria comprometer os resultados. A entidade considera, em resposta por e-mail, “que este sinal não é preocupante e não tem uma relação com o que se passará no sistema de depósito. São dois sistemas que funcionam de forma diferente.”

Há algo mais que nos inquieta — este sistema, considerando ainda a fase dos incentivos, poderia entrar em choque com a recolha nos ecopontos? De acordo com as nossas fontes na SPV, verificou-se, “efetivamente, um aumento na quantidade de embalagens PET enviadas para reciclagem, sem que este resultado possa, no entanto, ser  diretamente correlacionado com a existência das máquinas do sistema de incentivo”. E acrescentam: “O projeto-piloto para o sistema de incentivo arrancou com 23 máquinas, já os ecopontos são mais de 60 mil espalhados por Portugal. Com estes números em mente, percebemos que a expressão das máquinas é muito diminuta, quando comparada à rede massiva de ecopontos existente e implementada no País.”

Os responsáveis da Electrão, outra entidade gestora de resíduos, mostraram-se confiantes quanto ao novo sistema a adotar. Em respostas que nos enviaram, também por correio eletrónico, referem que "o futuro Sistema de Depósito com Retorno (SDR) funcionará com base num valor que o consumidor paga no momento da aquisição da embalagem e que poderá reaver com a entrega da embalagem na máquina. O facto de verificarmos que neste momento algumas pessoas continuam a depositar as embalagens, mesmo sem qualquer incentivo ou doação a uma IPSS, é notável. Essas pessoas entregam as embalagens guiadas apenas pela consciência ambiental. Este cenário leva-nos a crer que quando o sistema estiver implementado a adesão será muito satisfatória. Além dos cidadãos mais conscientes, envolverá todos aqueles que querem reaver o valor que pagaram pela embalagem no momento da compra".

Ainda segundo a mesma fonte, é difícil perceber se houve, efetivamente, uma transferência da recolha destas embalagens dos contentores de reciclagem amarelos para as máquinas, nos locais onde elas se encontravam: "Esta é uma questão muito pertinente, mas infelizmente não é possível efetuar essa análise. O número reduzido de máquinas e a sua distribuição geográfica não permite extrapolar para conclusões desse tipo, sobretudo numa época de pandemia em que se registaram muitas alterações nos hábitos. Teríamos de ter uma quantidade de máquinas muito maior para perceber se se registam desvios, ou seja, para perceber qual o real impacto no sistema."

Este será um dos temas em destaque na próxima sessão Knowledge, encontro dedicado aos temas Sustentabilidade e Novo Consumidor, promovida hoje, pelas 17h00, na Universidade Católica Portuguesa, e na qual estaremos presentes.   

Meta: 90% de embalagens separadas em 2029

Tendo em conta a Diretiva dos Plásticos de Utilização Única, a meta para a reciclagem destas garrafas é de 90% em 2029. Será que vamos acompanhar o passo? A SPV está otimista. “Os portugueses estão a reciclar mais. Os dados mais recentes demonstram que, até outubro deste ano, a reciclagem de embalagens aumentou 8%, face ao período homólogo de 2020.” Mas o futuro pode desencorajar, se aumentar a pressão ou criar encargos para a separação dos resíduos. Atualmente, um consumidor responsável tem apenas de se deslocar ao local onde se encontram os ecopontos com as suas embalagens e, aí, pode aceder a todos os contentores necessários. Assim que o novo sistema estiver implementado, o consumidor terá de levar as embalagens de bebidas em plástico e as latas para os locais de depósito, para não perder o valor da tara, e as restantes embalagens para o ecoponto. Para a SPV, “manter a conveniência e a simplicidade na hora de comunicar é muito importante, assim como, ao nível da infraestrutura utilizada pelo consumidor no momento de separar os resíduos, evitando a desistência da reciclagem.”

Por isso, vamos acompanhar de perto a proposta que será apresentada: os consumidores devem ter igual acesso aos sistemas de depósito, e o valor a cobrar pela tara das embalagens não poderá ser impeditivo, para que mantenham o seu poder de compra.

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