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Desperdício zero: podemos viver sem produzir lixo?

Há famílias que seguem o lema "desperdício zero" e tentam não produzir lixo em casa. Conheça-as e veja as nossas dicas para a sustentabilidade no lar.

  • Dossiê técnico
  • Fábio Aparício
  • Texto
  • Ricardo Nabais e Alda Mota
24 junho 2021
  • Dossiê técnico
  • Fábio Aparício
  • Texto
  • Ricardo Nabais e Alda Mota
Sem produzir lixo

iStock

“Nunca deixei de fazer nada por ter convicções diferentes”, esclarece Ana Milhazes, que se converteu à sustentabilidade com o lema "zero waste", ou desperdício zero. “Acho que isso é o mais importante: quando estamos numa comunidade à parte, não conseguimos mudar o mundo.” 

No seu blogue Ana, go slowly, que criou em 2012 (mais tarde, acrescentou-lhe uma loja online homónima, onde vende e-books sobre a matéria), explica o seu modo de vida em gestos simples e possíveis de aplicar na sociedade em que vivemos. A ideia de desperdício zero, divulgada pela blogger norte-americana Bea Johnson, acabou por se espalhar e tornar-se um movimento. E é muito simples: tentemos viver sem praticamente produzirmos resíduos. 

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Ana Milhazes sentiu a atração por esta ideia, e deu uma reviravolta à vida. Ainda no tempo em que era gestora de projeto numa empresa, a viver à velocidade máxima permitida pelo corpo e pela mente, já observava pequenos gestos para dar tréguas ao ambiente. “Sempre que saía do escritório, tinha o meu kit com sacos e frasquinhos para fazer as compras, e aproveitava, muitas vezes, a hora do almoço para ir a mercearias a granel, por exemplo.” Também levava a sua garrafa de água reutilizável, até para as inúmeras reuniões a que era obrigada a assistir, e tinha o seu copo de café na empresa.

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Ana Milhazes em família, num jardim perto de casa, em Vila Nova de Santo André (Foto: 4See/Rui Minderico).

Depois de mudar de rumo e de geografia — saiu do Porto para ir com a família para Vila Nova de Santo André (Santiago do Cacém) —, hoje consegue viver do blogue e de palestras sobre todos estes assuntos. Mas como se pratica o que se prega? Ana dá o exemplo do seu kit de sustentabilidade, composto por talheres (colher, faca e garfo, pauzinhos do chinês, palhinha reutilizável de aço inoxidável e guardanapo de pano), garrafa de água e copo de café reutilizáveis, lufa vegetal (esponja mais comprida, que pode ser utilizada no banho ou para lavar a louça), escova da louça com cabeça amovível, entre outros objetos.

O dia-a-dia começa cedo: “Ao pequeno-almoço, levamos sempre o nosso saco para comprar o pão, seja no supermercado, seja na padaria. Chegamos a comprar em maior quantidade, e congelamos fatiado. Depois, preparamos os lanches das crianças para a escola. Levam umas bolsinhas de tecido, reutilizáveis. Às vezes, até mesmo a minha enteada, que é mais velha, leva o almoço, e gosta de saladas, que acompanha com molho que transporta nuns frasquinhos de vidro. Também levam sempre as garrafas reutilizáveis, com água.” 

Fazem algumas refeições vegetarianas por semana, pois só Ana é “praticante” permanente deste hábito. Mas as refeições têm forte componente vegetal. Só há uma matéria que gera, por vezes, algum conflito: “Com os duches longos, às vezes, chateio-me um bocadinho. Então, dou uma sugestão, essencialmente à mais velha, que gosta muito de música: que escolha um tema, de cinco minutos, e que tente tomar banho só enquanto dura aquela música.”

Tenta que tudo se faça em casa da forma mais lúdica possível, da separação de resíduos para o ecoponto à consciência da redução do uso de plásticos, até em material escolar. “Acho engraçado, porque eles têm sempre uma justificação: ‘Ana, tentei comprar sem plástico, mas não encontrei...’” Ana Milhazes já conseguiu lançar as sementes destes conceitos, para as gerações seguintes.

Mais uma família sustentável

A vida de Catarina Barreiros é muito semelhante. Já trazia o bichinho da sustentabilidade dos hábitos familiares. “Há 28 anos, quase ninguém reciclava, mas a minha mãe reciclava. A minha avó lavava os sacos de plástico e estendia-os, para depois os voltar a usar. Aproveitávamos todos os restinhos de alimentos para fazer sopas e outra comida, e a água era reutilizada...” Mas houve um clique que a fez mudar de vez para um estilo de vida de desperdício zero, que divide em dois momentos: quando viu um documentário sobre consumo e alimentação e quando, depois, tomou contacto com as ideias de Bea Johnson, numa palestra a que a levou o marido, quando se conheceram.

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A família de Catarina Barreiros junto a produtos que utiliza no dia-a-dia (Foto: 4See/Raquel Wise).

O dia-a-dia começa sempre com um “relógio” natural: a filha do casal, que acorda todos em casa sempre às 06h00 da manhã. “Trocamos-lhe as fraldas, que são reutilizáveis, vestimo-la com roupa em segunda mão. Aliás, é muito raro comprarmos roupa nova para ela ou para nós. E vamos levá-la à escola de bicicleta.” Segue-se a vida profissional dos pais: “Trabalhamos num negócio virado para a sustentabilidade, ajudando as pessoas a acederem a produtos mais sustentáveis.” É a loja Do Zero, homónima do blogue de Catarina, que, tal como Ana, tenta espalhar a palavra da sustentabilidade. “Trabalhamos na nossa loja, às vezes, fazemos workshops, ou conferências, e tentamos, sempre que possível, manter as opções de teletrabalho, pois o transporte vai sempre gerar emissões. Mas, quando temos de deslocar-nos, se forem distâncias muito grandes (às vezes, algum cliente que esteja a uns 200 quilómetros), alugamos um carro elétrico.”

Nada é deixado ao acaso: “Se formos almoçar fora, temos a preocupação de escolher restaurantes que sigam os nossos princípios de sustentabilidade. Se não, ajustamos a alimentação e procuramos saber de onde vêm os produtos de origem vegetal que vamos consumir, dentro do possível.” Em casa, o cuidado com a água e o desperdício alimentar também são lemas fortes. “Depois de darmos o banho à nossa filha, aproveitamos essa água para descarregar o autoclismo. Tomamos banhos muito curtos, uns a seguir aos outros, para poupar a energia necessária para aquecer a água.” E, apesar de viverem em Lisboa, têm um pequeno quintal em casa, onde conseguem fazer a compostagem dos biorresíduos. E é possível fazê-la, defende Catarina, mesmo em apartamentos. “Utilizamos umas minhocas californianas numa caixa, que transformam em adubo os restos alimentares que não são utilizados, e que depois usamos na nossa pequena horta. Não tem cheiro.”

O exemplo começa em casa, mas há muito por fazer para mudar, em termos ambientais, o estado do mundo. Catarina lembra-se, e é só um exemplo, do forte lóbi da aviação, em detrimento da ferrovia. “O progresso, visto politicamente por alguns, não se coaduna com o progresso ambiental do mundo em que vamos viver daqui a dez ou 20 anos.” 

Recusar e reduzir, pela sustentabilidade

Na verdade, basta o senso comum para sabermos que é praticamente impossível viver sem produzir resíduos. O que esta iniciativa pretende é que exista uma mudança nos hábitos de consumo e que as pessoas se tornem mais conscientes de que é possível reduzir a quantidade de lixo que geramos ao longo do dia. Ao mesmo tempo, devemos utilizar os produtos ao máximo, sem a tentação de os deitar logo fora. Por isso, somam-se mais dois “erres” àqueles que já conhecemos desde há alguns anos. Falemos de todos de uma vez:

  • Recusar – é preciso dizer “não” aos produtos de que não necessitamos e que compramos apenas por impulso;
  • Reduzir – ao necessitarmos de menos produtos, também reduzimos a quantidade de resíduos gerados;
  • Reutilizar – antes de deitarmos qualquer coisa fora, temos de perceber se não é possível reparar o produto ou utilizá-lo noutro local, para outro fim;
  • Reciclar – tudo o que não conseguimos voltar a utilizar deve ser reciclado, mas devemos ter a noção de que existem materiais que não se podem reciclar para sempre;
  • Repensar – há que alterar atitudes, comportamentos e opções de compra, e utilizar os resíduos orgânicos gerados em casa, como restos de alimentos, para fazer composto, se possível. Algumas zonas do País já dispõem de recolha seletiva de biorresíduos. A lei vai cada vez mais, aliás, no sentido da redução e do reaproveitamento de resíduos e de outros objetos de consumo: até 31 de dezembro de 2023, é obrigatória a recolha seletiva de biorresíduos em todos os municípios, bem como dos têxteis, de resíduos perigosos e de resíduos de mobiliário (até 1 de janeiro de 2025).

Novidades na lei para a gestão de resíduos

  • A partir de 1 de julho, podemos levar os nossos recipientes para acondicionarmos a comida que formos buscar a um restaurante. Na mesma altura, poderemos passar a pedir copos de água da torneira em restaurantes, para acompanhar a refeição.
  • A partir de 1 de janeiro de 2023, teremos embalagens reutilizáveis em hotéis, restaurantes e cafés para as bebidas destinadas ao consumo no local.
  • Em 2024, as empresas da área alimentar vão ser proibidas de descartar produtos que ainda possam ser consumidos. Já as grandes superfícies estão aconselhadas a destinar áreas específicas para bebidas em embalagens reutilizáveis e produtos a granel. E, também a partir de 1 de janeiro de 2024, passa a ser proibida a impressão de cartões de fidelização de clientes, recibos, bilhetes por máquinas e vouchers de produtos ou serviços.

Dicas para reduzir o desperdício

Cozinha e limpeza do lar

  • Opte por beber água da torneira, e não engarrafada. Em Portugal, é totalmente seguro bebê-la. Se não gostar do sabor, adicione ingredientes, como maçã ou pepino.
  • Substitua objetos descartáveis por reutilizáveis, como toalhitas de limpeza por panos resultantes de roupa que já não usa.
  • Privilegie locais que vendam a granel. Pode levar os seus recipientes vazios e enchê-los com os produtos que deseja.
  • Em vez de comprar ambientadores, areje a casa durante, pelo menos, dez minutos duas vezes por dia.
  • Aproveite as sobras das refeições para fazer novas receitas. Em Portugal, desperdiça-se, por ano, um milhão de toneladas de alimentos.
  • Utilize um contentor para fazer compostagem. Se o município onde habita já possuir recolha seletiva de biorresíduos, pode também separá-los e entregá-los nesse serviço.

Quarto e roupeiro

  • Prefira a roupa em segunda mão ou faça alterações às suas peças de estações anteriores. Tente comprar produtos que tenham uma garantia para a vida.
  • Remende a roupa que se rasgou. Apenas por se ter danificado um pouco não significa que não a possa consertar e usar mais vezes.
  • Faça uma revisão à roupa que tem no armário. O que já não quiser e se encontre em boas condições pode doar a familiares, amigos ou a instituições de solidariedade.
  • Resista às promoções e campanhas que o levem a comprar o que não precisa. Evite ser impulsivo. Compre roupa poucas vezes por ano, e apenas aquilo de que necessita realmente.

Casa de banho

  • Compre champô e gel de banho em lojas a granel e utilize frascos para os guardar. Se não for possível, prefira embalagens maiores. Assim, reduz o número de embalagens utilizadas.
  • Utilize pasta dos dentes que não seja vendida com embalagem de cartão, que é desnecessária.
  • Considere fazer alguns produtos em casa. Cosméticos e pasta dos dentes são relativamente simples de produzir.
  • Evite escovas de dentes elétricas. Apesar de mais eficazes a remover a placa bacteriana, não está provado que reduzam a incidência de doenças dentárias. Mais: têm impacto ambiental muito superior ao das versões manuais em que é possível trocar a cabeça. Manuais ou elétricas, as escovas não são recicláveis e seguem para aterro.
  • Não use lâminas de barbear descartáveis. Prefira as que permitam a substituição de lâminas.
  • Escolha desodorizantes ou antitranspirantes com embalagem mais leve e que não venham em caixas de cartão.

Escritório

  • Adira às faturas via e-mail, rejeitando o envio por carta. Serão gerados menos resíduos de papel.
  • Utilize as folhas de impressões antigas como rascunho. As folhas que estejam apenas utilizadas num dos lados ainda podem ser úteis.
  • Prefira os clipes aos agrafos. Podem ser utilizados várias vezes, enquanto os agrafos terão de ser deitados no lixo depois de retirados.
  • Imprima apenas os documentos que são estritamente necessários.

Fora de casa

  • Escolha restaurantes que utilizem exclusivamente loiça reutilizável. Rejeite palhinhas e outros materiais dispensáveis.
  • Quando for às compras, além de recipientes vazios para encher nas lojas a granel, leve sacos para transportar o que adquirir. Não se esqueça ainda do saco do pão.
  • Leve também uma garrafa de água reutilizável. Assim, não terá de comprar água engarrafada.

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