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"Cidadãos têm de mudar o modo de vida e consumo"

O gestor António Costa Silva, que desenhou uma visão estratégica para o País até 2030, assegura que o futuro da humanidade está ameaçado, se se continuar a agredir a biodiversidade, a desperdiçar recursos energéticos, e não se apostar na economia circular e na sustentabilidade.

  • Texto
  • Myriam Gaspar e Filipa Nunes
18 fevereiro 2021
  • Texto
  • Myriam Gaspar e Filipa Nunes
António Costa Silva

Diana Tinoco/4see

Incumbido pelo primeiro-ministro de elaborar uma Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica do País, o presidente da comissão executiva da Partex Oil and Gas ouviu, em pouco mais de um mês, cerca de uma centena de pessoas e recebeu dezenas de contributos de todos os quadrantes da economia e da sociedade. Tem os números na ponta da língua, prontos a justificar o que defende ser melhor para o País, os consumidores e o planeta.

Como ser um consumidor mais sustentável

Ambiente

Esta pandemia é ou não uma oportunidade para a sociedade reavaliar os padrões de consumo?

Temos um paradigma cultural muito baseado no totalitarismo do consumo. Somos extremamente consumistas e estamos direcionados para o consumismo. Às vezes, é uma resposta às angústias e às dificuldades. Construímos um modelo muito negativo. Falta vontade política, falta uma consciência social muito crítica. Curiosamente, são os jovens que mais têm noção destes problemas. Temos de aproveitar esta janela de oportunidade e mudar todo o modelo de desenvolvimento. Esta crise também significa que estamos a matar a biodiversidade, o maior certificado de segurança da nossa vida. 

Já houve outras crises. Esta é mais grave?

Já houve crises muito significativas, e o planeta irá continuar a existir. Existe há 4500 milhões de anos e nós estamos cá há 200 mil anos. Somos uma fração mínima. O que está em causa é a sobrevivência da espécie humana. Quando olhamos para as variáveis, são inquietantes. Por exemplo, nos metros superficiais da camada do mar, deixámos acumular, nos últimos 30 anos, energia similar a cerca de mil milhões de vezes a energia deflagrada pelas bombas atómicas de Nagasaki e de Hiroshima. É uma bomba ao retardador que temos no oceano, razão pela qual defendo que devemos ter uma grande Universidade do Atlântico, sediada nos Açores, um dos melhores sítios do mundo para estudar a interação entre o oceano e a atmosfera, entre a terra e o ar. Hoje, os cientistas não sabem quais são os mecanismos que levam esta energia a libertar-se para a atmosfera e a criar fenómenos climáticos extremos: os tufões, os ciclones, com toda a devastação que daí deriva.

Mas porque é que isso acontece?

Nos últimos cem anos, a temperatura aumentou, no Ártico, cerca de 1,6 graus centígrados. É o maior aumento no planeta. Nas últimas três décadas, o Polo Norte perdeu dois milhões de quilómetros quadrados de gelo. Ora, o gelo é o estabilizador climático da Terra. Está relacionado com um parâmetro que não pode oscilar muito, o albedo, que é o coeficiente de reflexão solar. Quando incide no planeta, o gelo reflete parte dessa radiação. Se desaparecer, o aquecimento dos oceanos será incontornável. A subida do nível do mar será dramática. É preciso termos consciência disso. Há um terceiro elemento que eu considero decisivo, que é o permafrost na tundra ártica. Neste solo gelado, está contido carbono orgânico, estimado pelos cientistas em cerca de 1500 mil milhões de toneladas. São duas vezes mais do que todo o carbono que foi emitido até hoje para a atmosfera. Se este gelo for aquecido, aquela matéria orgânica começa a ficar à solta, as bactérias atuam, é convertido em metano se não existir oxigénio, e é reconvertido em dióxido de carbono se existir oxigénio. Quer um quer outro são dos gases com efeito de estufa mais letais que fazem aumentar a temperatura do planeta. Considerando que, em cada década, a temperatura do planeta aumentou 0,2 graus centígrados, temos, até 2030/2032, uma janela de dez a 12 anos para fazer essa mudança.

Que mudança?

A mudança está umbilicalmente ligada à alteração completa dos modelos de consumo. Transformamos recursos em lixo a uma velocidade brutal. Em Portugal, consumimos mais 30% de energia do que toda aquela de que precisamos. Desperdiçamos recursos a uma escala incomportável.

António Costa Silva 

A que se deve este desperdício de recursos energéticos?

Deve-se à forma como o modelo económico e social está montado. Por exemplo, na União Europeia, produzimos por ano quatro mil milhões de toneladas de lixo.

Depois, pagamos à Ásia para ficar com o lixo...

Exatamente! Cada um de nós, os 500 milhões de habitantes da UE, produz oito toneladas de lixo por ano. Como é possível? Continuamos a depositar entre oito e dez milhões de toneladas de plástico no oceano. É letal para todas as cadeias alimentares. O que explica isto? Estamos cientes das questões. A cimeira do Rio, a primeira em que se discutiram estes problemas, foi antes da mudança do milénio. No ano 2000, as emissões de CO2 no planeta eram de 25 mil milhões de toneladas. Aumentaram cinco vezes relativamente a 1950, ou seja, cinco vezes em 50 anos. Isto está ligado ao desenvolvimento económico e social, o crescimento pelo crescimento, àquilo a que chamam o modelo das matrioscas invertidas. Ou seja, do ponto de vista económico, temos de crescer sempre mais e mais, sem termos em atenção que há um teto ecológico, que é o teto imposto pelo sistema terrestre. O que é extraordinário neste milénio é que terminámos 2019 com 35 mil milhões. Fazemos conferências, discutimos, e nada muda em termos do modelo de desenvolvimento económico e do modelo de consumo dos cidadãos.

Não acha que o excesso de informação está a confundir as pessoas? Há cada vez mais negacionistas e pessoas que acreditam em teorias da conspiração…

Nas questões climáticas, porque é que há teorias negacionistas? Sabemos que, no passado, houve ciclos de aquecimento da Terra seguidos de ciclos de glaciação. Esses ciclos foram muito estudados, nomeadamente por [Milutin] Milankovitch, um cientista que relacionou essas mudanças com as alterações da órbita da Terra, dos parâmetros orbitais, da excentricidade... Durante anos, a temperatura subia, depois descia… Aliás, há 12 mil anos saímos de uma glaciação, e a Terra começou a aquecer, criando as condições para o desenvolvimento extraordinário da civilização humana nestes últimos milénios. Isso hoje está mais do que estudado. A partir de 1950, o PIB mundial começou de repente a crescer. E começou a crescer porquê? Porque as grandes descobertas desenvolvidas no século XX ou antes, mas depois implementadas no século XX – à cabeça, o motor de combustão interna com base no petróleo, o carro, o avião, a eletricidade, o computador, o telefone, o laser, etc. –, tiveram um efeito brutal, nos fatores de produção. Estas tecnologias levaram o PIB mundial a crescer, a criar e espalhar prosperidade pelos cinco continentes. Não é por acaso que o século XX foi incrível ao nível do desenvolvimento tecnológico, científico, mudando completamente a história da espécie humana no planeta.

O que vai acontecer se nada mudar?

Vivemos com a ideia errada de que se vai encontrar uma solução dentro do modelo atual. Não vai! Os dados são dramáticos. À medida que os eventos climáticos extremos se sucederem, e a seca se intensificar, as coisas vão começar a bater-nos à porta. O nosso país já tem fenómenos de desertificação no Alentejo e no Algarve, e podemos ter problemas de escassez de água nos próximos anos. O deserto do Sara está a avançar, os países do Norte de África podem também entrar num processo de desertificação acelerada. É por isso que eu defendo que tem de haver uma espécie de capital mediterrânica, que pode ser sediada em Beja ou em Mértola, para combater a ameaça climática e a desertificação, mobilizar os fundos europeus e trabalhar com os países do Norte de África e com os países mediterrânicos da Europa, a fim de se encontrarem soluções para esses problemas. Uma delas é alertar a população. Os negacionistas vão perder, porque as alterações climáticas estão a ocorrer a uma dimensão gigantesca e a própria biodiversidade está a diminuir. As condições para novas pandemias vão aumentar, porque muitos destes vírus estão contidos nos seus habitats naturais, mas, à medida que formos cada vez mais agressivos com o meio ambiente, tudo isso ficará em causa. Se não aproveitarmos esta janela para mudar, será muito difícil. Temos de diminuir em 40% o consumo de carvão e em 15% o de petróleo, e aumentar em 40% o consumo de energias renováveis.

Há soluções. O que falta?

Falta vontade política e a consciência dos cidadãos de que têm de mudar o modo de vida e o modelo de consumo. Por exemplo, a indústria da moda contribui com cerca de 10% para as emissões mundiais de dióxido de carbono. E cerca de 20% devem-se ao mau uso dos terrenos, o que é paradoxal. Por exemplo, a Holanda apostou num programa de biocombustíveis. A quem compra o óleo de palma? À Malásia, que destrói terrenos todos os anos, para queimar as culturas que existem e plantar palmeiras. Estive em Kuala Lumpur [capital daquele país] em junho, e o céu fica completamente bloqueado, parece que é de noite. Isto repete-se ano após ano, e não se faz nada. No documento sobre a Visão Estratégica, proponho o fim dos subsídios aos combustíveis fósseis. Ainda hoje o mundo tem 400 mil milhões de dólares de subsídios. Não há coragem para se acabar com isto. E atenção: não houve nenhuma fonte de energia que se tenha imposto sem ter o apoio inicial dos governos. O desenvolvimento do petróleo ocorreu porque Winston Churchill, quando era primeiro lorde do Almirantado, em 1911, decidiu substituir a ulha [carvão fóssil], que abastecia toda a frota britânica, pelo petróleo, dando-lhe um impulso brutal. O petróleo desempenhou o seu ciclo. Sabemos hoje as consequências…

Recursos energéticos

Em apenas cem anos, é incrível o impacto que o petróleo teve.

É brutal, brutal. Hoje, é claramente preciso mudar. Mais de 3500 economistas, incluindo americanos, subscreveram um manifesto a favor do imposto sobre o carbono. Um deles é [Nicholas] Gregory Mankiw, que segue um pouco a linha do que defendia Arthur Pigou, um economista inglês na transição do século XIX para o século XX, no sentido de taxar as atividades poluentes. Seria um sinal indispensável. É também muito importante estimular a economia circular. No documento da Visão Estratégica, proponho a reutilização e a reciclagem dos lixos, a começar pelos lixos florestais: é possível transformá-los em energia. Mas, para isso, é preciso dar-lhes um valor económico para as populações se mobilizarem a limparem as matas e irem entregar às centrais. É uma rutura com o paradigma que existe. Dizem que não é possível, mas todos os anos milhões e milhões de euros em árvores ardem em incêndios. Se fizermos uma análise integrada, provavelmente vale a pena mudar o modelo.

Isso implica conhecer o território...

Não conhecemos. E, no entanto, temos excelentes culturas. O sobreiro e a azinheira, por exemplo, regulam o ciclo hidrológico da água. Uma tonelada de cortiça consegue retirar 73 toneladas de dióxido de carbono. Isto significa que o mosaico florestal combinado, otimizado, pode ser essencial para evitar as debilidades do território, mas, para isso, tem de se conhecer o território, estudar e desenvolver projetos que sejam realmente fundamentais. Por um lado, para parar a desertificação, e, por outro, para termos um território mais resiliente que permita lutar contra as vulnerabilidades. Depois, temos de tratar os lixos, os resíduos, de uma forma apropriada.

Como se estimula uma agricultura mais ecológica e sustentável, que possa beneficiar os consumidores?

Outra grande lição da crise é ter revelado a importância da agricultura biológica e sustentável, das cadeias logísticas curtas. Há várias experiências no País, e penso que isso será cada vez mais uma questão no futuro, não só no campo, como também nas cidades. Hoje, conseguimos criar plantas sem solo, com base na água, a chamada hidroponia. A esse nível, Portugal tem algumas valências que deveria aproveitar, e apostar nas tecnologias e na chamada agricultura de precisão. Defendo, por isso, que devemos ter uma nova geração de agricultores, sobretudo jovens. Para tal, a extensão da fibra ótica por todo o País é importante. Os novos agricultores trabalham muito com tecnologias digitais, usam imagens de satélite para intervir nos terrenos. Fomos habituados a lidar, digamos, de uma forma cega com os solos, com a agricultura. Se introduzirmos mais ciência, mais informação e conhecimento para lidar com base nestes métodos, podemos mudar muito a trajetória dessa área. É também muito importante atender aos problemas de gestão dos solos e da água, porque, sem solos e sem água, não há agricultura. Este setor representa não só 4% do PIB, como tem feito avanços muito importantes. A ministra da Agricultura anunciou há tempos a agenda da inovação.

Foi muito criticada...

Pois… Mas essa agenda da inovação tem o desígnio de ter, em 2030, mais de metade dos sistemas agrícolas baseados em modelos sustentáveis. Faz todo o sentido! Aposta também mais 60% na investigação e desenvolvimento tecnológico, envolvendo todos os laboratórios do Estado, os centros de investigação, dando-lhes um desígnio. Penso que isso pode ser positivo.

Há uma resistência à mudança?

Há sempre a resistência à mudança.

A otimização dos recursos hídricos é, como diz, essencial. É preciso alertar a população para uma utilização inteligente da água?

Isso faz parte do nosso paradigma cultural. Comportamo-nos como donos da natureza, sem deveres apropriados. Um dos deveres é o uso parcimonioso dos recursos. A água é absolutamente decisiva. Sem água, não há vida. Mais de 50% dos nossos recursos hidrológicos vêm de Espanha, e hoje já temos rios que estão em situações extremamente difíceis. Se o País continuar sem pensar a médio e longo prazo, e sem definir que medidas implementar sobre a nossa relação com os recursos e o seu tratamento, a situação é problemática. Otimizar o funcionamento, regular todo o sistema de aquíferos, de infraestruturas, e adequar o modelo de consumo pode ser a solução. 

Energia

Defende que é essencial acelerar a eletrificação da economia, de forma a garantir preços mais competitivos. Como?

O processo da eletrificação da economia é incontornável. A única razão por que a eletricidade ainda não é hoje absolutamente dominante é não conseguirmos armazenar eletricidade em grande escala. E isso explica porque o petróleo e o gás continuam a ser dominantes. Mas a armazenagem em grande escala, com base no novo conceito das baterias de fluxo, está a caminho. Para mim, será uma das descobertas do século. É muito importante o País estar preparado para isso.

Quais os passos a dar no sentido da eletrificação?

Começar com a eletrificação da frota de automóvel nas cidades é vital. Apostar na mobilidade sustentável, no modelo das cidades inteligentes. Isso significa investir nos sensores, na inteligência artificial, nas máquinas que aprendem a simular tudo o que se passa na cidade em termos do tráfego de pessoas, de veículos, das redes de energia, de resíduos, de água. Se fizermos isso, os custos de contexto baixarão de forma significativa. Devemos terminar com o modelo anterior, e que foi criado quando se apostou nas energias renováveis. Atenção: desde sempre defendi que o País devia apostar nas energias renováveis. Em 2005, a nossa dependência face ao exterior de petróleo, gás e carvão era na ordem dos 87%; hoje é de cerca de 71 por cento. Portanto, houve uma diminuição muito substancial. Contudo, o modelo que existia, baseado nas feed-in tariffs, ou seja, no apoio inicial dado pelos governos, foi provavelmente excessivo e criou algumas situações complicadas.

Há outro tipo de energia alternativa?

Sempre acreditei que o sol ia ser uma das grandes energias deste século, pela simples razão de que, em cada dia que passa, recebemos oito mil vezes mais energia do sol do que toda aquela que usamos. Nos últimos anos, o custo dos painéis solares diminuiu cerca de 75 por cento. Hoje, a energia eólica já é competitiva. Portanto, a questão aqui é terminar os apoios – e penso que muitos destes projetos estão em fase de terminar os apoios –, e deixar que o mercado fale. Estas energias já são suficientemente competitivas para competir com todas as outras. A única questão é a intermitência. Isto é, o armazenamento é o problema-chave em termos do futuro. Penso, no entanto, que desse ponto de vista podemos ter uma redução significativa dos custos de contexto, uma redução dos custos de energia. Depois, é deixar o mercado funcionar.

Educação

Defende que deviam ser concedidos incentivos públicos às famílias e apostar na criação de novas competências dos cidadãos. De que forma?

Temos um problema ainda muito grave de qualificação e de educação em Portugal. Apesar de todos os avanços que houve nos 46 anos de democracia, quando olhamos para o indicador-chave, que é a percentagem da população ativa que termina o ensino secundário, somos o pior país da União Europeia dos 27. É evidente que isto é uma espada de Dâmocles, que impende sobre o desenvolvimento da economia. Penso que o País tem de apostar significativamente nessa matéria. Se daqui a dez anos sairmos do último lugar, para estarmos alinhados com a média europeia, será um avanço extraordinário. Não podemos, contudo, esquecer todas as tecnologias digitais. Há um estudo muito interessante da McKinsey que diz que o impacto na economia pode ser dez vezes maior do que o da revolução industrial, com uma escala trezentas vezes maior. Portanto, pode mudar muita coisa. Mas ao mudar muita coisa, também vai criar uma geração de desempregados. Os programas de apoios devem servir para requalificar as pessoas. O nosso país tem um envelhecimento muito acentuado. É muito importante reconfigurar essa força de trabalho. Outro aspeto tem que ver com a economia circular, com a bioeconomia, onde temos de criar competências. Não podemos esquecer também a importância fundamental que terá a ciência de dados. Somos uma civilização que acumula dados de uma forma sem precedentes. Nos últimos cinco anos, o volume de informação que acumulámos no mundo aumentou 20 vezes.

Mas é preciso tratá-la.

Pois! Não conseguimos transformar a informação em conhecimento, nem conhecimento em sabedoria. É por isso que não conseguimos antecipar riscos. Estamos agora com todos estes problemas com esta pandemia, e não conseguimos olhar para o médio/longo prazo. Penso que toda a questão da ciência de dados vai mudar os cientistas de dados de múltiplas formas. Serão criadas novas carreiras e postos de trabalho. Muitas áreas e profissões mudarão, não tenho dúvida nenhuma. Da engenharia à medicina, da advocacia ao jornalismo. Vamos ter muitas mudanças com o desenvolvimento destas tecnologias, mas temos de antecipar e, sobretudo apostar na formação das pessoas e na qualificação. Se não fizermos isso, falharemos rotundamente.

Saúde

A saúde é um tema também abordado no seu Plano Estratégico. Defende que o Estado deve tratar o Serviço Nacional de Saúde como um investimento, e não como um passivo.

O problema reside nas métricas. Sempre que se discute o Serviço Nacional de Saúde, a reação dos média e da sociedade é: “É preciso mais despesa do Estado.” Defender a saúde dos cidadãos é despesa do Estado, ou é um investimento no futuro do País? É uma questão vital para nós. Vamos deixar as pessoas morrer? Sem população, como se cria um país? Portanto, alguns dos serviços cruciais que o Estado presta, sobretudo a saúde e a educação, são investimentos no nosso futuro. O que se passa? As métricas que existem são muito formatadas numa certa visão do mundo, baseada na ideia de que o Estado tem de ser mínimo e que o Estado só atrapalha. Como tal, o Estado está sempre a agir de forma reativa. Isto não significa que tenhamos de construir uma economia dirigista. Mas há que reconhecer o que a pandemia expôs aos olhos de todos: precisamos de um Serviço Nacional de Saúde minimamente equipado e preparado. Tem de ser requalificado, reconfigurado, e ser prestável. Se não tivermos um serviço de educação que esteja também bem adaptado aos tempos de hoje, que forme e qualifique os cidadãos, ficaremos numa situação difícil. Portanto, a proposta é mudarmos o nosso paradigma mental e olharmos para estas duas áreas como investimentos, e não como despesa, com toda a carga negativa que isso tem. É evidente que a despesa do Estado tem de ser controlada. É um problema de gestão e de apresentação de respostas eficazes. Acho que a crise é uma oportunidade para equilibrar a tal combinação virtuosa que precisamos entre o Estado e o mercado.

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