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Ana Milhazes: um blogue pelo planeta

A autora do blogue Ana, Go Slowly defende uma desaceleração do consumo, rumo à sustentabilidade.

07 junho 2022
Ana Milhazes

Daniela Gandra

Há muito que a nossa condição de seres que habitam um planeta faz correr rios de tinta. A relação que mantemos com a natureza é feita de perigos, controlos, transformações e superações, e de uma consciência cada vez maior de que temos nas mãos as tarefas de preservar e salvar a nossa casa comum. No seu espaço online Ana, Go Slowly, a bloguer Ana Milhazes propõe em textos simples, debruados a um design suave e revigorante, plantado no universo da banda larga, soluções simples e constantes para tentarmos mudar o mundo a partir do nosso microcosmos quotidiano.

"Acredito que depois vamos descobrir o lado bom", diz. "Percebo que estou a poupar, é bom para a minha carteira e é bom para o planeta. Portanto, quero acreditar, e estar sempre no lado otimista do cenário." O lema principal é "desperdício zero", com conselhos práticos que podemos encontrar no seu blogue. O conceito, traduzido para a realidade nacional a partir do pensamento de outra bloguer, a norte-americana Bea Johnson, significa algo muito simples: como podemos viver produzindo o mínimo de resíduos possível? O exemplo começa em casa.

Vamos por partes, seguindo os pilares básicos do consumo no lar. Como fazemos com a energia? "É preciso não deixar as luzes acesas muito tempo, os aparelhos em standby, e perder a mania de termos o computador ligado constantemente..." Algo tão simples, e ainda mais fundamental em tempos de crise energética. 

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Poupar em alimentação e mobilidade

As recomendações são simples, mas nunca é demais repeti-las. A alimentação aparece como um elemento fundamental neste firmamento doméstico, ainda mais com uma crise já sentida na subida de preços dos cereais e de outros alimentos básicos. A regra de optar, tanto quanto possível, por produtos locais torna-se ainda mais importante no contexto atual, sobretudo no caso de Ana, que segue uma dieta vegetariana. "Sei que a questão dos cereais é complicada e, na alimentação vegetariana, a grande base também são os cereais e alguns vegetais. Mas há sempre formas de nos adaptarmos. Acredito, por exemplo, que a carne e o peixe cada vez vão ser mais escassos e caros ao longo do tempo", diz. "Ainda assim, dadas todas as circunstâncias, acredito que a alimentação vegetal seja a melhor, porque é muito versátil." E a questão do consumo local, tanto quanto possível? "Se agora quisesse consumir só cereais produzidos em Portugal, poderia ser difícil, porque há alguns que nós produzíamos e que deixámos de produzir." O otimismo, contudo, deve continuar a fazer jurisprudência: "Pode ser que, de facto, se comece a perceber que é necessário voltar a produzir certo tipo de cereais." Ana lembra que já existe, por exemplo, quinoa portuguesa. 

Há mais regras a observar no campo da alimentação, mas com essas estamos mais familiarizados: comprar o mínimo de produtos embalados ou levar sacos para as compras. 

A mobilidade faz a força

Outro ponto fundamental do quotidiano de um consumidor sustentável é a mobilidade. É com alguma relutância que Ana não consegue disfarçar que mantém o automóvel, apesar do nível de emissões que qualquer veículo representa. O segredo volta a estar na procura de equilíbrio, entre uma atividade que lhe exige deslocações com alguma frequência, ou não tivesse a bloguer construído já uma carreira que se confunde com o seu ideal, e uma vida em busca da sustentabilidade.

As palestras frequentes e uma mudança recente, para o Porto, exigiram uma mobilidade mais convencional: "Já pensei várias vezes em viver sem carro. Mudei agora de casa e fiz as mudanças recorrendo ao automóvel. Mas tenho poucas coisas e, portanto, o que tento é otimizar sempre as viagens em tudo o que faço. Imaginemos que tenho de ir ao outro lado da cidade – faço logo tudo o que tenho a fazer por lá. Não faço viagens propositadas, tento ter esse cuidado também. Procuro ainda partilhar boleias com amigos." 

Fugir ao radicalismo

Mas o essencial é feito a pé. Na parte da Invicta onde reside atualmente, pode viver na mítica "cidade dos 15 minutos": "Tenho os serviços básicos todos perto. Até os correios, porque tenho, muitas vezes, de enviar os meus livros a quem os encomenda." O livro em questão resume esta filosofia e esta prática de vida, com conselhos práticos, e chama-se, a preceito, Vida Lixo Zero. O estilo é sempre o mesmo. Não procura impor pontos de vista ou modos de vida, o que seria mau para a causa, por isolar quem tenta convencer os outros. "Quando estamos numa comunidade à parte, não conseguimos mudar o mundo", dizia Ana quando a entrevistámos, há um ano, para uma reportagem sobre famílias que vivem sem produzir lixo em casa. Ou, pelo menos, que o tentam. O lema é correr por gosto, sem cansar: "Não faço sacrifícios, porque, se os fizesse, deixava de ter sentido."

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