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Perdas de água: 93,6 milhões de euros desperdiçados em 2020

A água que se perdeu, em 2020, ao longo das condutas, daria para abastecer mais de um milhão de famílias. Trata-se de 174 milhões de metros cúbicos de água tratada e pronta a beber. Um desperdício ambiental e económico para o País.

22 março 2022
perdas agua

Inspirart e Nuno Semedo

As entidades gestoras desempenham um papel determinante na utilização sustentável da água que abastecem. Em 2020, porém, 68 entidades, responsáveis pelo fornecimento em 83 concelhos, apresentaram elevadas perdas de água já tratada e pronta a entrar nas torneiras de nossas casas. O volume total de perdas de água para consumo humano – depois de, em 2018, se situar nos 172 milhões de metros cúbicos (m3) – aumentou para 174 milhões, o que corresponde a 93,6 milhões de euros. Os números baseiam-se no relatório que a Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR) produz anualmente, com base na informação das entidades gestoras.

Entre 2017 e 2018, as perdas reais diminuíram ligeiramente. Em 2017, mais de 180 milhões de m3 de água dissiparam-se, o que corresponde a esbanjar cerca de 90 milhões de euros. Um ano depois, o balanço era um pouco mais animador, mas insuficiente: as perdas reais de água desaceleraram para 172 milhões de m3, um valor a rondar os 85,5 milhões de euros. 

Perdas de água: falta de informação e avaliações insatisfatórias em 117 municípios

Ao município com perdas reais de água superiores a 150 litros por ramal, e por dia, ou perdas superiores a 5 mil litros diários por quilómetro, de acordo com os parâmetros da ERSAR, é atribuída uma avaliação insatisfatória. Trata-se de um dos indicadores nos quais se baseia a avaliação da qualidade do serviço das entidades gestoras. No total, em 2020, são 83 os concelhos com nota negativa. Mas, se acrescentarmos os que não enviaram informação (34), no total, são 117 municípios insatisfatórios. O indicador é “bom” em 92 entidades gestoras, com responsabilidade da gestão de perdas de água em 109 municípios.

Há quatro anos, Macedo de Cavaleiros encabeçou, em Portugal Continental, a lista dos municípios com mais litros de perdas reais de água por ramal, e por dia, O município transmontano perdeu, em 2018, 1,94 milhões de m3   ̶   ou 778 reservatórios médios de abastecimento de água, com capacidade para 2500 metros cúbicos. Já em 2020, Macedo de Cavaleiros abandonou o primeiro lugar, reduzindo as perdas reais para 1,479 milhões de metros cúbicos. Face a 2018, traduziu-se numa poupança de 186 reservatórios. Mesmo assim, são valores muito elevados e insatisfatórios.

Chaves, Estremoz, Sesimbra e Maia constavam igualmente da lista dos 15 municípios com maiores perdas em 2018. Mas, dois anos depois, reduziram o volume desperdiçado. Maia diminuiu para metade, poupando 1,7 milhões de m3 de água. 

Vinte e quatro entidades não responderam à ERSAR. Ou seja, não forneceram informação sobre o volume de perdas reais de água nos 34 municípios da sua responsabilidade, não tendo conseguido calcular a quantidade desperdiçada de um recurso escasso como a água, mas que pode atingir valores muitíssimo elevados. Tal é um indicador da fraca qualidade do serviço, com elevada probabilidade de enormes perdas. Cabeceiras de Bastos e Castelo de Paiva, respetivamente, em 6.º e 13.º lugares em 2018, deixaram de reportar informação sobre os ramais. De qualquer modo, de acordo com o volume total, Castelo de Paiva aumentou as perdas de 704 mil m3, em 2018, para 1,1 milhão de m3, em 2020, de acordo com o volume global.  

Perdas reais de água (litros por ramal/dia)
Municípios 2018 2020 Variação
Macedo de Cavaleiros 538 322 -216
Terras de Bouro 502 440 -62
Chaves 468 256 -212
Anadia 461 458 -3
Estremoz 404 339 -65
Cabeceiras de Basto 401 Não respondeu
Vila Nova de Cerveira 397       (1)
Silves 377 396 19
Loures e Odivelas (SIMAR) 369 400 31
São Brás de Alportel 342 412 70
Mação 321       (2)
Sesimbra 310 252 -58
Castelo de Paiva 302 Não respondeu
Maia (SMAS) 300 122 -178
Santa Marta de Penaguião 300       (3)

(1) Integrou a agregação ADAM (Águas do Alto Minho), em 2020.
(2) Integrou a agregação TEJO AMBIENTE, em 2020.
(3) Integrou a agregação ADIN (Águas do Interior – Norte), em 2020.

Perdas reais de água (milhões de m3/dia)
Municípios 2018 2020 Variação
Macedo de Cavaleiros 1945 1479 -0,466
Terras de Bouro 0,698 0,699 0,001
Chaves 2654 2416 -0,238
Anadia 2363 2396 0,033
Estremoz 1324 1197 0,127
Cabeceiras de Basto 1137 Não respondeu
Vila Nova de Cerveira 0,707         (1)
Silves 2027 2240 0,213
Loures e Odivelas (SIMAR) 6825 7500 0,676
São Brás de Alportel 0,711 0,870 0,159
Mação 0,898         (2)
Sesimbra 2259 1849 -0,410
Castelo de Paiva 0,704 1104 0,400
Maia (SMAS) 3180 1467 -1713
Santa Marta de Penaguião 0,511         (3)

(1) Integrou a agregação ADAM (Águas do Alto Minho), em 2020.
(2) Integrou a agregação TEJO AMBIENTE, em 2020.
(3) Integrou a agregação ADIN (Águas do Interior – Norte), em 2020. 

Reabilitar e manter as condutas de água

O desperdício não é uma fatalidade. Estancar as fugas passa, sobretudo, pela reabilitação e manutenção das condutas que transportam a água até às habitações. Em Portugal Continental, perfazem mais de 106 mil quilómetros. A médio e longo prazo, é o investimento nas condutas que permitirá reduzir as avarias nas condutas e as perdas reais de água e dar continuidade à distribuição de água de excelente qualidade. As falhas na gestão eficiente das infraestruturas e de medidas de apoios aos investimentos explicam, em grande parte, que os valores de perdas de água em 2020 se mantenham muito similares aos anos anteriores.

O impacto da fraca reabilitação das condutas pode ser significativo. Avarias, falhas e perdas de água produzem efeitos negativos nas entidades gestoras, com o aumento dos custos em reparações não planeadas. Mas também os consumidores e a comunidade envolvente podem ser lesados, pela possibilidade de haver acidentes provocados por rutura de condutas. Neste cenário, corre-se o risco de as perdas se associarem aos tarifários pagos pelos clientes.

A partir de 2020, a criação de seis agregações, envolvendo 36 municípios, visou melhorar a gestão dos serviços de águas. As câmaras municipais de Vila Nova de Cerveira, de Mação e de Santa Marta de Penaguião, que, em 2018, integravam os 15 municípios com maiores perdas de água por ramal, fazem parte, há dois anos, das novas entidades que pretendem minorar as perdas.

A recuperação dos custos incorridos pelas entidades gestoras não deve ser refletida diretamente no preço cobrado na fatura da água. É necessário, pois, um mecanismo de correção que garanta a harmonização tarifária nas regiões e nos municípios e que impeça que os custos de ineficiência recaiam sobre o consumidor, que, neste complexo enquadramento, é o elo mais fraco. Nesse sentido, o Regulamento Tarifário dos Serviços de Água, ainda por aprovar, é um instrumento que pode ter um papel determinante na definição das tarifas a cobrar.

A escassez, a seca e a disponibilidade hídrica são problemas que tendem a agravar-se e que implicam a gestão e a utilização eficiente da água.

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