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Alugar trotinete? Compra pode compensar

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A trotinete é um dos transportes partilhados mais usados em Lisboa. Criámos um cenário de viagem para comparar custos e perceber se comprar vale a pena.

  • Dossiê técnico
  • Fátima Martins e Alexandre Marvão
  • Texto
  • Sofia Frazoa e Filipa Nunes
20 setembro 2019
  • Dossiê técnico
  • Fátima Martins e Alexandre Marvão
  • Texto
  • Sofia Frazoa e Filipa Nunes
trotinete

iStock

Os transportes partilhados são uma alternativa para a mobilidade urbana, contribuindo indiretamente para diminuir o congestionamento no centro das cidades e as emissões poluentes. O "sharing" é a partilha de automóveis, motorizadas, bicicletas ou trotinetes, disponível através de aplicações gratuitas no smartphone (com exceção do carsharing, em que alguns operadores cobram também pelo registo na aplicação). Na maioria dos casos, o cliente só paga pelo serviço. O processo de registo e acesso ao sistema é 100% eletrónico.

Segundo a informação disponível na página oficial da Câmara Municipal de Lisboa (CML) dedicada à mobilidade partilhada, existem na capital portuguesa 16 operadores, quase 7 500 veículos disponíveis e 400 mil clientes ativos.

As trotinetes elétricas são o tipo de veículo em maior número (cerca de 5 mil unidades), seguidas das bicicletas (com apoio elétrico e clássicas são 1 500) e das motos (elétricas, de 50 cc e de 125 cc, num total de 600). Os automóveis, elétricos e não elétricos, são os veículos que existem em menor número (apenas 350), mas a CML disponibiliza 61 lugares de estacionamento exclusivos para carsharing.

Analisámos o custo de utilização das trotinetes face às outras opções de mobilidade partilhada existentes em Lisboa. Também fizemos as contas para saber se vale a pena comprar uma trotinete em vez de recorrer ao aluguer.

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Trotinete comparada com outros transportes partilhados

A comparação entre opções é difícil de fazer devido às características e constrangimentos de cada serviço e à típica utilização de cada meio de deslocação, assim como a fatores exteriores como percursos, trânsito ou velocidade, dependendo do veículo utilizado. O nosso cenário é um exemplo teórico e os resultados não são passíveis de extrapolação nem de generalização.

Definimos uma situação de viagem muito concreta, à qual aplicámos a tarifa base de cada operador, praticada em julho. 

O percurso do nosso cenário

Considerámos uma viagem no Parque das Nações, em Lisboa, pela Avenida Dom João II até ao Passeio do Levante, numa extensão de 2,1 quilómetros. Segundo o Google Maps, demoraríamos 26 minutos a fazer este trajeto a pé e 6 minutos se fôssemos de carro. Estimámos que levaríamos os mesmos 6 minutos a fazer o percurso de mota, 13 minutos de trotinete e 9 minutos de bicicleta.

Para calcular os custos de realização desta viagem com recurso às várias opções de mobilidade partilhada, tivemos em conta os tempos de viagem referidos e aplicámos as tarifas base dos operadores. Considerámos que os veículos estavam disponíveis no local definido para o início da viagem e que era possível terminar a viagem no ponto de destino fixado, sem necessidade de prolongar o tempo de utilização do veículo para encontrar um local adequado de estacionamento.

O preço da viagem

Fazer uma viagem de trotinete com as características definidas custaria € 2,45, usando uma Lime, ou € 2,95 utilizando os veículos dos outros operadores. No caso da Circ, havendo um hotspot do operador na zona onde íamos terminar a viagem, se estacionássemos aí recuperávamos € 0,50 e pagávamos o mesmo preço da Lime.

Recorrendo ao carsharing, conseguíamos fazer a mesma viagem por € 1,56, optando pelo modelo mais económico (€ 0,26 por minuto), enquanto a solução mais cara ficava por € 1,98 (€ 0,33 por minuto). De mota, gastávamos, mais ou menos, o mesmo que se optássemos pelo carro com a tarifa mais baixa (€ 1,50 ou € 1,56), conforme o operador.

Uma bicicleta Jump seria a solução mais barata para fazer esta viagem: conseguiríamos chegar ao destino gastando apenas 1,35 euros. Na realidade, a Jump pratica o mesmo preço por minuto do que todos os operadores de trotinetes (0,15 cêntimos). A diferença está em que estes, adicionalmente, aplicam uma taxa de desbloqueio (de € 1 ou de € 0,50), que tem um impacto significativo no preço total das viagens, desfavorecendo a trotinete na comparação de custos com outros transportes partilhados, sobretudo em viagens mais curtas. No caso da viagem que definimos, o impacto da taxa de desbloqueio faz com que a trotinete seja a solução mais cara entre todas as opções possíveis.

Numa situação de grande intensidade de trânsito, os veículos de duas rodas podem melhorar a sua posição na comparação dos custos de viagem face ao carsharing, já que os automóveis ficam inevitavelmente retidos nas filas.

E se fizer duas viagens?

Supondo que umas horas depois queríamos voltar ao local de origem - fazendo o percurso em sentido contrário e demorando o mesmo tempo, com os veículos à disposição no mesmo local -, esta segunda viagem, aplicando sempre as tarifas base dos operadores, ficaria pelo mesmo preço da primeira e bastava multiplicar por dois para obter a despesa total com as duas viagens.

Esta conclusão é válida para todos os operadores que praticam tarifas ao minuto, mas não para as bicicletas Gira, da EMEL. Estas funcionam num sistema de passes, que permite ao utilizador fazer as viagens que entender sem custos adicionais, desde que cada viagem não dure mais de 45 minutos e haja um período de espera entre viagens. Mas têm um constrangimento que, em geral, não se verifica nos outros serviços de mobilidade partilhada: apesar de permitir viajar por todo o lado, dentro dos limites do concelho de Lisboa, obriga a que todas as viagens comecem e terminem numa das 48 estações existentes.

Com estas limitações, usando o Gira, o utilizador poderia andar de bicicleta durante um dia inteiro por um preço inferior ao que custaria a nossa viagem de 2,1 km de trotinete. Se considerássemos duas viagens destas, o Gira ganhava vantagem no preço em relação a todos os outros operadores de mobilidade partilhada e a vantagem seria maior quantas mais viagens realizássemos.

Comprar uma trotinete compensa?

As trotinetes podem ser um meio de transporte interessante para fazer deslocações pontuais dentro da cidade, mas são uma solução que fica cara face a outras alternativas para quem pretenda utilizar com frequência.

Para os adeptos da trotinete que queiram fazer uma utilização regular, conforme as circunstâncias, poderá compensar comprar o seu próprio veículo, em vez de recorrer a serviços de mobilidade partilhada.

Pegando no exemplo que definimos, alguém que precisasse de fazer essa viagem duas vezes por dia, todos os dias úteis, gastaria num mês cerca de € 130, usando as trotinetes dos operadores Bird, Frog, Hive, Tier, Voi e Wind e quase € 108 se optasse pelo serviço da Lime ou da Circ (neste caso, só seria este o valor se o utilizador pudesse terminar as viagens num hotspot indicado na aplicação).

São montantes muito elevados e os operadores não apresentam alternativas à tarifa base, uma vez que não há pacotes de minutos, nem passes, ao contrário do que acontece noutras modalidade de sharing, que permitem custos de utilização mais baixos para quem viaja com mais frequência.

Face a estes montantes, comprar uma trotinete elétrica poderá ser uma solução. Há no mercado trotinetes com características e preços muito diferentes, desde cerca de € 100 até várias centenas de euros. Se gastássemos entre € 250 e € 300 na compra de um veículo, sem contar com as despesas de carregamento, o investimento estaria recuperado em dois a três meses de utilização, comparando com os custos de utilização das trotinetes partilhadas.

 

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