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Proteção dos dados não é prioridade para todas as marcas de automóveis

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Vender um carro pode provocar surpresas, como o acesso aos dados pessoais e à vida privada. Revelamos os automóveis onde é mais fácil apagar os dados, o que fazem os construtores e locadoras e cuidados ao comprar ou vender.

  • Dossiê técnico
  • Alexandre Marvão e Pedro Mendes
  • Texto
  • José Macário e Nuno César
15 julho 2021 Exclusivo
  • Dossiê técnico
  • Alexandre Marvão e Pedro Mendes
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  • José Macário e Nuno César
Mulher a utilizar sistema de infoentretenimento no Volkswagen

Quando compra um carro, pode encontrar mais do que um boneco perdido, uma moeda entre os bancos ou papéis velhos no porta-luvas. Dados de navegação, como os últimos destinos ou a morada de casa, podem ficar alojados no sistema do automóvel. Quando liga o smartphone ao carro, mesmo que pretenda apenas para usar o kit mãos-livres, o automóvel pode importar a lista de contactos e guardar o registo de chamadas, com os números para onde ligou.

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Se for adepto de streaming de música, o automóvel pode armazenar os seus dados de utilizador, abrindo caminho para que o novo dono do veículo possa continuar a usar o serviço por conta do anterior. Em carros de segmentos superiores, que permitem a criação de contas de utilizador para maior personalização, esses dados são também armazenados. E não podemos esquecer os dados transmitidos para os sistemas centrais das marcas.

É fácil apagar os dados do smartphone no automóvel?

Na era digital, os dados são o novo ouro. São a porta de entrada para a nossa vida. Deixá-los expostos a desconhecidos é um risco a evitar. Assim, quando possível, não sincronize o telefone com automóveis, sobretudo em caso de aluguer ou carsharing. Se o fizer, não se esqueça de apagar os dados pessoais antes de devolver o veículo.

Se apenas ligou o smartphone, apagar o equipamento da lista de conexões deverá ser suficiente. Caso tenha criado uma conta de utilizador ou tenha feito muitas personalizações, recomendamos que use a função “restaurar definições de fábrica”.

Veja no sistema de infoentretenimento se é possível evitar a transmissão de localização para terceiros. Entre os carros que testámos, os modelos da Renault e da Honda já o permitem. Outros fabricantes, como a Audi ou a Mercedes, oferecem a possibilidade de criar uma conta de “convidado”, que não atribui as informações de localização a nenhum utilizador em particular.

À partida, no seu automóvel não há problema em explorar todas as possibilidades da tecnologia, mas, quando o levar para uma reparação mais profunda, ou se o decidir vender, o melhor será apagar os dados que entretanto foram recolhidos.

Como investigámos 11 automóveis

Quais são os dados a apagar e como fazê-lo? Para responder, selecionámos 11 automóveis e testámos a facilidade com que se conseguem apagar os dados guardados pelo sistema. Criámos perfis para os smartphones mais populares, Android e iOS, e ligámo-los aos vários automóveis. Cada um tinha mais de 2000 contactos, para garantir que a importação demoraria algum tempo. Cronometrámos essa operação e, de seguida, eliminámos o smartphone da lista de aparelhos disponíveis. Aquando da reconexão, analisámos a diferença no tempo necessário para a reimportação. Se o processo fosse agora mais rápido, seria lógico suspeitar de que os dados não haviam sido apagados.

Verificámos ainda se é fácil encontrar a opção para apagar dados ou utilizadores. Contámos todos os passos necessários e concluímos que o Honda e o e Opel Ampera-e oferecem uma estrutura mais lógica e intuitiva. Requerem meros quatro passos para serem acedidos.

Outros, como o Volkswagen e-up! ou o Hyundai i30, obrigam a ir mais fundo nos menus de configuração do sistema, registando um máximo de oito passos até apagar a informação recolhida.

Não deixámos de fora uma análise dos manuais de utilizador. Procurámos informação útil e valorizámos todos os manuais que listavam os dados a apagar. Todos oferecem a possibilidade de desativar os serviços de localização, ainda que o processo seja, por vezes, bastante complicado. Merecem nota positiva a Renault com informação sobre os dados que devem ser apagados quando pretender vender o automóvel, bem como a Nissan, que incluiu no manual uma listagem detalhada de toda a informação recolhida e transmitida para o sistema de dados central da marca, com que frequência e com que propósito.

Confrontámos as marcas de automóveis e as empresas de aluguer sobre dados

Recolhidos os dados, os nossos parceiros da ADAC (a maior organização automóvel da Alemanha) confrontaram os intervenientes com as conclusões. Dos 23 construtores inquiridos, 11 responderam. BMW, Honda, Land Rover, Nissan, Suzuki, Tesla, Toyota, Volkswagen e Volvo esquivaram-se às perguntas. O mesmo aconteceu com Avis, Enterprise, Sixt e Stadtmobil, quatro dos nove operadores de aluguer ou carsharing contactados. Entre os que cooperaram, merece destaque a Share Now, que respondeu sem ser preciso insistir. Já no que toca a empresas de software, só a Apple respondeu. A Google preferiu não o fazer. 

As respostas apontam para que a restauração das definições de fábrica apague todos os dados guardados no carro. Seat, Hyundai, Kia e Mercedes vão mais longe, e afirmam que esta função apaga também os dados dos seus sistemas.

Quanto às contas de utilizador, Porsche, Mercedes, Škoda e Hyundai foram as únicas marcas a confirmar que estas podem continuar ativas depois de o automóvel mudar de dono. Contudo, foi com agrado que recebemos a notícia de que Fiat, Seat, Škoda, Kia e Mercedes têm em vigor normas nos concessionários que obrigam a apagar todos os dados antes de revender o veículo.

Os operadores dizem não ter interesse nos dados dos telemóveis, mas a verdade é que têm meios autónomos de monitorizar a localização dos veículos, o que os mesmos afirmam ser feito por razões de faturação, controlo do bloqueio dos veículos, deteção de viagens além-fronteiras e para clarificar multas. No entanto, todos os operadores asseguram ter implementado ações automáticas para limpar os dados à medida que os modelos são devolvidos, como é o caso da Share Now.

Em carros que troquem muitas vezes de mãos, usar os sistemas Apple Car Play ou Android Auto pode ser uma alternativa. Estes espelham o smartphone no sistema do automóvel e, segundo a Apple, apenas a música atual e as mais recentes instruções de navegação são transferidas. No nosso teste concluímos que este software se mostrou menos fiável do que os programas do automóvel, nomeadamente no que toca à perda de ligação, à receção GPS e a limitações de compatibilidade.

Ponderados os dados e as respostas, o melhor é assumir nas suas mãos a gestão dos dados. Esse é o apelo feito pelos construtores nas letras miudinhas das instruções. E ler as letras miudinhas é sempre boa ideia.

Alertas e boas práticas para vendedores e compradores

Recomendamos uma lista de conselhos antes de vender o automóvel, quando comprar em segunda mão ou quando devolver um veículo alugado ou usado em carsharing. O objetivo é garantir que os dados pessoais são mesmo só seus.

  • Apagar os equipamentos conectados e todos os perfis de utilizador dos sistemas de infoentretenimento e da ligação mãos-livres antes da devolução/venda do automóvel.
  • Apagar os últimos destinos do sistema de navegação e outras definições pessoais que possam ter sido feitas no sistema operativo do automóvel.
  • Se comprar um carro em segunda mão, pode pedir ao vendedor para restaure as definições de fábrica do sistema de infoentretenimento e cancelar todas as contas de utilizador existentes.
  • Se o kit mãos-livres for suficiente, recuse o armazenamento de informação do smartphone aquando do emparelhamento.
  • Se usar serviços de streaming de música, desvincule a sua conta antes de devolver ou vender o automóvel.

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