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Lesados da Volkswagen em discurso direto

Ninguém mexe no meu carro

Há quem se recuse a “pagar para ver”. Nenhum dos próximos quatro consumidores fez a intervenção, mesmo os que já foram convocados. E questionam o fundamento da medida, que Portugal adotou como obrigatória. “Não recebi nenhuma notificação de uma entidade oficial. A SIVA é um importador e não lhe reconheço autoridade”, sublinha Paulo Carmo, dono de um Volkswagen Passat 2.0 que foi notificado duas vezes. “Ainda não percebi se a obrigatoriedade vem das autoridades europeias ou do Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT). Se for o primeiro caso, não se percebe que só seja obrigatória nalguns países; se for o segundo, não se percebe porque é que o IMT adotou a medida como obrigatória quando não o é noutros países”, observa este engenheiro, de 42 anos.

Bem documentado e seguindo fóruns, Paulo não acredita nas informações da Volkswagen e lembra que o manual da marca nos EUA alerta para o novo software poder afetar os carros (som do motor, frequência de regenerações, alterações no binário e consumo). “Não quero fazer uma atualização que avaria o carro, para depois vir para a estrada poluir o mesmo ou mais”, diz Paulo, que não pretende desfazer-se do veículo que serve para as viagens com a família e para a rotina, em Lisboa.

“Refém do carro”

Hélder Gomes, proprietário de um Volkswagen Golf Variant 1.6, marcou a ação de serviço quando recebeu a primeira notificação da marca, em novembro do mesmo ano, mas não compareceu. Dias antes, viu uma reportagem sobre os efeitos colaterais da intervenção. “Fiquei assustado e procurei mais informação”, conta este bancário, de 37 anos, que vive em Santa Maria da Feira. Recebeu uma segunda carta, num “tom de ameaça”. A marca avisava de que tinha 15 dias para agendar a ação. Caso contrário, sinalizaria o carro, mas isso não o intimidou: “Enquanto não for notificado por uma entidade estatal, com base numa lei, não o farei.”

Ricardo Santos, dono de um Volkswagen Golf 1.6, recebeu uma carta idêntica em janeiro. Mas antes a SIVA já tinha enviado um sms. Chegou a marcar a ação de serviço, que desmarcou por razões profissionais. Desde então, tem adiado o recall por receio: “É um martírio diário ler testemunhos. Não acredito na solução. Sinto-me refém do carro; há um ultimato fictício para fazer uma ação que o vai danificar”, diz este professor, de 37 anos, que vive em Guimarães e faz diariamente 100 quilómetros para trabalhar.

Joel Sousa, dono de um Volkswagen Golf 1.6, é cliente desde 2005 (este é o quarto carro), mas diz-se “enganado”. Atento ao escândalo, marcou a ação, mas cancelou-a quando soube do número de relatos negativos. Não recebeu nenhuma carta da SIVA, mas garante que nada mudará. “Não pretendo fazer a intervenção até que o IMT me obrigue, com fundamentação legal”. Este professor, de 38 anos, de Faro, está “disposto a procurar alternativas para a anular, caso seja obrigado”.

A SIVA não tem autoridade para obrigar a ações de recall. Esta história não pode acabar com um total atropelo dos direitos dos consumidores. Voltámos a pressionar as autoridades com responsabilidade na matéria em Portugal e na Europa. Um ano depois, lembramos as perguntas sem resposta.

  • O IMT nunca prestou esclarecimentos. Porquê?
  • Por que motivo a SIVA só apresenta a medida de confiança depois da reclamação e só então assume a reparação?
  • E por que impõe condições para a medida de confiança?
  • Por que razão na Europa a marca não foi obrigada a compensar os donos de carros afetados e os Estados-membros não são indemnizados? A ação de serviço é obrigatória em Portugal, mas não existe nenhum diploma: apenas uma diretiva da Direção-Geral do Consumidor.
  • Os consumidores estão a ser notificados pelo representante da marca, mas não deveria ser o IMT a fazê-lo?