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Lesados da Volkswagen em discurso direto

Cansados de avarias, muitos consumidores decidiram desfazer-se dos carros, mesmo com prejuízo na revenda. Outros hesitam, com medo de perderem dinheiro. Recolhemos testemunhos de quem já não tem esperança de ser compensado.

  • Dossiê técnico
  • Alexandre Marvão
  • Texto
  • Sónia Graça e Nuno César
30 outubro 2020
  • Dossiê técnico
  • Alexandre Marvão
  • Texto
  • Sónia Graça e Nuno César
Bandeiras da Volkswagen no stande

iStock

Poucos meses depois de ter submetido o carro à ação de serviço da Volkswagen, em maio de 2017, António Carrasqueiro apanhou um susto. O Golf Variant 1.6, a gasóleo, que comprou novo em 2010 por 27 mil euros, começou a “deitar fumo branco pelo tubo de escape, engasgava-se e ia abaixo”. Durante dois anos, este administrador de sistemas informáticos, de 57 anos, suportou os efeitos colaterais do recall, com idas constantes à oficina. Até que, em agosto do ano passado, decidiu desfazer-se do carro. Propuseram-lhe 6500 euros, mas não hesitou e trocou-o por um híbrido de outra marca: um Toyota Corolla.

António, que vive e trabalha em Faro, é um dos 125 mil portugueses afetados pelo escândalo das emissões e que continuam sem receber um euro de compensação. Cinco anos volvidos, a Volkswagen anunciou que não irá indemnizar mais consumidores, alegando que nenhum cliente terá ficado prejudicado quanto à segurança, à capacidade do veículo e/ou ao preço de revenda. Nada de mais falso.

Descubra os consumos e as emissões de poluentes reais do carro

António Carrasqueiro, por exemplo, passou a fazer visitas regulares à oficina após o recall. Certa vez, teve de ir a Lisboa, para uma consulta, e a luz da resistência acendeu sete vezes durante a viagem, obrigando-o a parar na autostrada. Em maio de 2019, voltou à oficina, e disseram-lhe que o problema era a válvula EGR, que estava suja. Pensou: “É desta!” Nada disso. Em agosto, estava parado num semáforo, em Faro, quando o Golf começou a “engasgar-se”, ameaçando ir abaixo. Foi a gota de água. “Já não podia ver o carro à frente, com o ralenti sempre a falhar”, recorda.

António Carrasqueiro, administrador de sistemas informáticos, 57 anos, Faro: “Já não podia ver o carro à frente. Troquei-o pelo híbrido Toyota Corolla”. 
António Carrasqueiro, administrador de sistemas informáticos, 57 anos, Faro: “Já não podia ver o carro à frente. Troquei-o pelo híbrido Toyota Corolla”.
André Luís, técnico de energias renováveis, 35 anos, e Mónica Henriques, funcionária pública, 40 anos, Caldas da Rainha: “Num mês, fomos três vezes à oficina da marca". 
André Luís, técnico de energias renováveis, 35 anos, e Mónica Henriques, funcionária pública, 40 anos, Caldas da Rainha: “Num mês, fomos três vezes à oficina da marca”.

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Vânia Oliveira, professora de dança, 34 anos, Maia: “Não consegui recuperar a confiança no carro, e muito menos na marca”.
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Joel Sousa, professor, 41 anos, Albufeira: “Sinto-me um cliente de segunda categoria, comparado com um alemão ou americano”.

Ofereceram apenas 5500 euros pelo Volkswagen Golf

António Carrasqueiro começou por abordar o concessionário da marca, em Faro, que ofereceu apenas 5500 euros. Recusou e foi aguentando. Algum tempo depois, conheceu um vendedor da Toyota, que o convidou para uma feira de viaturas de serviço. Lá, ofereceram-lhe 6500 euros pelo Golf. António não hesitou. “Mesmo sabendo do problema que o carro tinha, até me ofereceram mais do que a Volkswagen.” E, assim, decidiu trocá-lo por um Toyota Corolla híbrido, a gasolina, com seis meses e 10 mil quilómetros, que lhe custou 27 mil euros, feito o desconto. Embora admita que poderia ter vendido por um valor superior, António nunca se arrependeu: “Perdi a confiança na marca. Nunca mais.”

Mónica Henriques e André Luís, donos de uma carrinha Seat Altea XL, da qual se desfizeram entretanto, partilham o sentimento. “Comprámos um carro fiável e, de um dia para o outro, passámos a andar de coração nas mãos”, diz Mónica, funcionária pública de 40 anos, que vive nas Caldas da Rainha com o marido e os dois filhos. Os problemas começaram após o recall, em outubro de 2017. “O carro perdia força, a luz do filtro de partículas acendia constantemente. Num mês, fui três vezes à oficina da marca”, conta André, técnico de energias renováveis, de 35 anos. “Não sentia segurança nas rotundas, porque o motor acelerava e desacelerava ao mesmo tempo”, recorda a companheira. Por isso, quando voltaram à oficina pela terceira vez, um mês após a ação de serviço, decidiram entregar a viatura à retoma: ofereceram-lhes nove mil euros, que descontaram na compra de outro Seat, um Arona a gasolina, que custou cerca de 10 mil euros. 

Seat novo… com defeitos no banco

O casal fechou negócio contrafeito. “Só voltámos à marca, porque não tivemos alternativa. O máximo que outros concessionários nos ofereceram foi 5500 euros”, lamenta Mónica, longe de imaginar que o novo carro que acabavam de comprar, além de mais pequeno, tinha defeitos. “Poucos meses depois, recebemos uma carta da Seat avisando de que havia um defeito de fabrico no banco central traseiro. Ou seja, se houvesse uma paragem brusca ou um embate, e se os três assentos estivessem ocupados, um dos cintos destrancava-se!” 

Pior ainda: “Esta campanha é apenas uma solução provisória, que não garante a segurança de forma permanente. Deste modo, solicitamos que, mesmo após a sujeição do veículo à reparação, continue sem utilizar o assento central do banco traseiro”, avisava a Seat. “É desconcertante… de cada vez que damos um passo em frente, parece que damos dois atrás”, desabafa Mónica. Entretanto, a família alargou-se há dois meses, com o nascimento de uma menina, e o casal comprou uma carrinha Peugeot, que usa para viagens maiores e para transportar as compras e o carrinho da bebé. A bagageira é maior do que a do Arona e “os cinco lugares [são] utilizáveis”.

Fábio Silva também tinha um Seat Ibiza 1.6, que optou por vender, comprando uma carrinha Škoda, que não falhou até hoje. Do início: este chefe de equipa de reparação, de 34 anos, comprou o Seat, novo, em 2010, por 19 mil euros. Ainda antes do recall, a válvula EGR avariou. Mas os problemas só começaram em fevereiro de 2017, quando submeteu o carro à ação de serviço obrigatória. “Disseram-me que a válvula EGR estava avariada e que havia problemas no motor”, recorda Fábio, que vive em Coimbra. “A verdade é que o carro perdeu potência, deitava muito fumo durante as regenerações, mais consumo de combustível… Perdi a confiança no motor.” 

“Queria despachar o carro de vez”

Antes de vender, contudo, Fábio tomou outra providência. Em dezembro de 2018, depois de se informar em fóruns e no grupo de lesados no Facebook, decidiu fazer uma “reprogramação” do carro numa oficina, que lhe custou 250 euros e cujo objetivo era “repor os parâmetros de gestão do motor antes do recall”. Nessa altura, recorda, ficou a saber que não era a válvula EGR que estava avariada, mas o sensor da pressão. Sentiu “melhorias imediatas, mas o dano nos injetores foi permanente”. Além disso, perdera a confiança no carro, e não estava disposto a gastar cerca de dois mil euros em novos injetores. Então, em abril do ano passado, conseguiu, sem dificuldade, vendê-lo a um particular, por 7500 euros. “Saí um bocadinho prejudicado, mas queria despachar o carro de uma vez por todas. Não há dinheiro que pague dores de cabeça.” 

Joel Sousa, dono de um VW Golf 1.6, que comprou novo em 2010, é cliente da marca há 15 anos (este é o quarto carro), mas, ao contrário de Fábio, quer mudar. “A Volkswagen tem tido um comportamento miserável. Sinto-me um cliente de segunda categoria, comparado com um alemão ou um americano. Para mim, nunca mais.” Em janeiro de 2018, quando a PROTESTE falou pela primeira vez com este professor, ainda não tinha sido notificado pela marca para fazer a ação de serviço. Continua sem ser convocado para a medida. “Acredito que, se tivesse feito o recall, já não teria carro, ou já teria feito reparações de milhares de euros”, diz Joel, que vive e trabalha em Albufeira.

“Ofertas baixíssimas para vender o carro”

O objetivo de Joel é entregar o carro à retoma o mais brevemente possível. Até porque sabe que, a partir deste mês, entra em vigor uma normativa que torna mais exigentes as inspeções periódicas, nomeadamente quanto ao cumprimento destas ações de chamada para veículos da marca Volkswagen. É em abril do próximo ano que Joel tem de levar o carro à inspeção, mas já anda a pesquisar opções de venda. “Quero fazê-lo com tempo e com o mínimo de prejuízo possível. Mas as ofertas que tenho recebido de outras marcas são baixíssimas: a mais alta foi de 5500 euros”, diz, recordando que pagou 26 mil euros pela viatura.

A frustração perpassa o seu discurso. “Isto não se coaduna com a expectativa inicial de quem compra um Volkswagen. O meu carro está imaculado para a idade que tem, e com poucos quilómetros [menos de 140 mil]. O valor justo, para mim, seria de 8500 euros.” No entanto, Joel está conformado com a ideia de que será um “negócio ruinoso, de qualquer forma”. E sem esperança de vir a ser compensado. Ainda chegou a subscrever a ação promovida em 2015 pela DECO PROTESTE. 

Vânia Oliveira também manteve a carrinha Seat Ibiza ST 1.6, apesar dos efeitos colaterais e das muitas avarias após o recall, ocorrido em abril de 2017. “Há dois meses, tive de fazer a substituição da válvula EGR, que custou 700 euros, e, passadas duas semanas, não tendo ficado a 100%, detetámos mais um tubo roto, que implicou outra reparação, de 150 euros”, conta esta professora de dança, de 34 anos. “Desde que fiz a reprogramação e todas as reparações seguintes, o carro nunca mais teve a mesma potência. E, passados tantos anos, não consegui recuperar a confiança nele, e muito menos na marca.”

Não passar o problema do carro para outro consumidor

Desde que, em janeiro de 2018, a PROTESTE falou com Vânia, e até há dois meses, a situação tem continuado “estável”, apesar da “diminuição da potência” do veículo. Mas há outras razões para ainda não se ter desfeito da carrinha. “Quando comprei um carro de 0 km, o meu objetivo principal era ficar com ele muito tempo. Também não me parece bem passar o meu problema para outra pessoa. Além disso, sei que vou sair muito prejudicada com a venda. Está pago e não queria mais uma sobrecarga no orçamento familiar.” Entretanto, acrescenta, o marido comprou outro carro. A sua Ibiza, diz, só mesmo para ir para o trabalho, “enquanto aguentar”. 

Vânia deixa um desabafo: “Esperava que o Estado fizesse cumprir os direitos dos portugueses, como noutros países. A Volkswagen cometeu uma ilegalidade, e quem pagou foram apenas os consumidores.”

Cinco anos de silêncio da Volkswagen

Cinco anos depois de rebentar o escândalo, voltámos à estrada para ouvirmos os consumidores. As soluções estão em ponto morto: em Portugal, ninguém foi compensado. E muitos antigos clientes da marca venderam o automóvel com uma redução significativa do valor comercial, ou seja, foram duplamente lesados. 

Continuamos a aguardar pela resposta da justiça portuguesa, e a Volkswagen continua a recusar-se a compensar todos os consumidores europeus. No Velho Continente, só os lesados alemães tiveram direito a compensação. Depois de ter compensado os clientes dos Estados Unidos da América e da Austrália, a Volkswagen acedeu a indemnizar 260 mil consumidores na Alemanha. Cada lesado teve direito a 6500 euros. A maioria dos consumidores europeus afetados ainda reclama, assim, uma indemnização. A Volkswagen recusa esta reivindicação.

A Euroconsumers, grupo internacional de que fazemos parte, em conjunto com outras organizações de consumidores, instaurou, por isso, uma série de processos em Portugal (DECO PROTESTE), na Bélgica (Test-Achats), em Espanha (OCU) e em Itália (Altroconsumo). Queremos acabar com a desilusão de milhares de clientes: vamos continuar a lutar por todos em tribunal. Não vamos baixar os braços até que todos os consumidores sejam compensados de forma justa. Saudamos a decisão da Volkswagen, de reconhecer os prejuízos que causou aos consumidores alemães, mas estamos surpreendidos com o facto de os alemães serem os únicos consumidores na Europa compensados. Todos os cidadãos europeus prejudicados merecem igual tratamento. Não aceitamos a visão de um mundo (e de uma Europa) com cidadãos de primeira e de segunda. A Volkswagen vai pagar. Só falta saber se a bem, por acordo, ou a mal, com uma decisão judicial.

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