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Condutores exigem oito ações para melhorar a rede de carregamento dos carros elétricos

Conduzimos três mil quilómetros em Portugal, Espanha, Bélgica e Itália. Destacamos o que falta fazer para que o carro elétrico seja uma opção real e prática para todos.

  • Dossiê técnico
  • Alexandre Marvão
  • Texto
  • Nuno César
10 maio 2021 Exclusivo
  • Dossiê técnico
  • Alexandre Marvão
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  • Nuno César
Carro elétrico, Kia e-niro, em carregamento numa estação de serviço

Victor Machado

As vendas de carros elétricos descolaram. A eletrificação da mobilidade é uma realidade inevitável, com os fabricantes a reformularem a oferta e a fixarem prazos concretos para o fim dos motores a combustão. No final da década, mais de metade dos carros novos serão totalmente elétricos.

 

Para o ambiente e para a saúde, é uma boa notícia: estes modelos têm uma pegada de carbono muito menor do que os carros a gasolina e a gasóleo, e não emitem gases de escape nem partículas. Para os consumidores, também é uma boa notícia.

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Carregar com eletricidade sai mais barato do que atestar com combustível, e o custo de manutenção é muito mais baixo. Apesar do preço dos carros ainda ser elevado, num futuro próximo, o mercado será invadido por modelos mais baratos. Mas não podemos ignorar as dúvidas que a tecnologia ainda suscita. A principal inquietação está relacionada com a rede de carregamento e com o “stresse da autonomia”. Para acabarem com as dúvidas, as organizações de consumidores de Portugal, Espanha, Itália e Bélgica conduziram carros 100% elétricos, a fim de avaliarem a resposta da rede pública de carregamento. Viajámos 1300 quilómetros, entre outubro de 2020 e janeiro de 2021. Na estrada descobrimos boas surpresas, mas encontrámos soluções muito desiguais. Falta uma visão comum e integrada ao nível europeu.

Na Bélgica e em Itália, tivemos de ligar para a assistência, de modo que a ligação fosse aprovada e o carregamento iniciado. 
Na Bélgica, tivemos de ligar para a assistência, para aprovar a ligação e iniciar o carregamento a meio do roteiro.
Em Itália, entre Florença e Roma, viajámos 120 km sem encontrarmos nenhum carregador. 
Em Itália, entre Florença e Roma, viajámos 120 km sem encontrarmos nenhum carregador.

Exigências dos consumidores com prioridade

Legislador, construtores de carros, empresas e operadores de postos têm muito trabalho pela frente. Destacamos as oito exigências mais urgentes dos condutores de carros elétricos.

Carregar em casa para poupar ainda mais

A melhor forma de carregar um carro elétrico é fazê-lo durante os longos períodos em que está estacionado. O problema é que nem sempre é barato ou possível instalar pontos de carga, por exemplo, em condomínios, nem as empresas têm políticas de incentivo para os trabalhadores ao nível do carregamento. Para muitos, a única opção é usar a rede pública.

É preciso reforçar a lei, para promover e simplificar a instalação de postos privados nos edifícios existentes e novos criados de raiz. Outra solução passa por dar acesso a financiamento público, para instalar carregadores privados ou partilhados pelo condomínio em edifícios antigos. O melhor incentivo é apoiar a rede privada e libertar a rede pública para viagens longas, necessidades pontuais e consumidores sem outra solução.

Postos mais rápidos

Na rede pública, o principal receio é o tempo necessário para carregar. Este não pode ser longo ou um momento perdido. Os carregadores normais demoram até seis vezes mais para carregar do que um modelo rápido. Em ambiente urbano, é preciso aumentar os carregadores rápidos, a fim de garantir maior rotação de utilizadores. Defendemos a necessidade de converter a rede pública para carregadores com mais de 22 kW e criar pontos de carregadores rápidos.

Em viagens longas, é essencial contar com a resposta da rede, tanto ao nível da disponibilidade, como da rapidez. Esperávamos encontrar estações de serviço com carregadores rápidos em todas as autoestradas e estradas principais. Mas deparamos com cenários muito distintos.

Autoestradas com supercarregadores

As principais rotas devem ter carregadores rápidos e ultrarrápidos em todas as estações. Cada estação deve contar com postos suficientes para os veículos que ali rodam.

Posto a cada 50 quilómetros

Nenhuma região pode ficar à porta da mobilidade elétrica. Fora das localidades, é crucial garantir distâncias inferiores a 50 quilómetros.

Um só cartão para todos

O pagamento deve ser simples, prático e transversal a todos os operadores da rede. Com a exceção de Portugal, os países não garantem a interoperabilidade entre estações, nem acordos pontuais entre fornecedores de eletricidade. O consumidor deveria conseguir utilizar toda a rede, independentemente da marca, com apenas o cartão de um fornecedor. Na prática, é obrigado a fazer dois, três ou mais contratos com fornecedores de energia, para garantir o uso do posto seguinte.

Portugal é um bom exemplo de um sistema de pagamento universal. A empresa pública MOBI.e integra todos os fornecedores e operadores. O consumidor pode contratar o fornecedor à sua medida e usar o mesmo cartão em todos os postos.

O pagamento deve ser prático em cada país e em toda a Europa. Os postos públicos devem prever também a possibilidade de pagar com cartão de débito e de crédito. Em nenhum país foi possível pagar sem já ter um contrato com o fornecedor ou uma aplicação com registo e cartão de crédito.

Pagamento ocasional é básico

Para utilizadores ocasionais ou turistas, ou no caso de esquecer o telemóvel, deve ser possível pagar com cartão de crédito ou débito, dinheiro ou um cartão pré-pago.

Tarifa justa e transparente

Urge garantir informação clara sobre o preço da energia e as tarifas. Falta regulamentar e harmonizar os critérios das tarifas e as taxas extra.

Aplicações amigas do condutor

Em todos os países, utilizámos apps com o mapa dos carregadores. Mas nem sempre foi fácil encontrar o carregador marcado ou saber se funcionava antes de lá chegar. Nos países com pagamento via app, o sistema, por vezes, não funcionou.

As apps facilitam o carregamento e ajudam a planear a viagem, mas acusam vários pontos fracos. Falta criar um protocolo de comunicação comum entre as estações. Só assim as apps podem exibir dados fiáveis, como local, disponibilidade, preço e reserva. Enquanto todas estas exigências básicas não forem satisfeitas, a mobilidade elétrica não sorrirá a todos os consumidores.

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