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Autocaravanas online sem surpresas na fatura

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Reservámos uma autocaravana online e fomos até à Ericeira sentir na pele o prazer e as dificuldades de um principiante. Investigámos o preço e as condições de dez empresas. Uma noite em agosto custa, em média, 160 euros.

  • Dossiê técnico
  • Dulce Ricardo, Sofia Lima, Susana Costa Nunes e Susana Pereira
  • Texto
  • Ana Rita Costa, Filipa Nunes e Nuno César
31 agosto 2021 Exclusivo
  • Dossiê técnico
  • Dulce Ricardo, Sofia Lima, Susana Costa Nunes e Susana Pereira
  • Texto
  • Ana Rita Costa, Filipa Nunes e Nuno César
autocaravana siesta campers na praia da Calada, Ericeira

Victor Machado

As empresas de autocaravanas de reserva online prometem férias em total liberdade, mas o conceito obriga a controlo e disciplina. Fizemos a experiência e não faltou nada na primeira vez a viajar de autocaravana. Preparámos um roteiro para garantir uma aventura inesquecível sem rombos na carteira e partilhamos tudo o que precisa de saber: lei, cuidados e refeições.

Fizemo-nos à estrada até à reserva mundial do surf, na Ericeira, ao volante de uma viatura da Siesta Campers. E ouvimos fãs de longa data deste estilo de vida.

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Autocaravanas dão liberdade, mas exigem planeamento de pernoita e paragens

O autocaravanismo está nas bocas do mundo e não é apenas por se afigurar como uma opção mais flexível, livre e segura para viajar em tempo de pandemia. As autocaravanas convencem famílias ou grupos de amigos que desejam fazer férias, e os portugueses escolhem-nas como meio de deslocação cá dentro ou em alternativa ao avião nas visitas ao estrangeiro.

Com as recentes alterações ao Código da Estrada, é proibida a pernoita (permanência de autocaravana ou similar, com ocupantes, entre as 22h00 e as 7h00) e o aparcamento (estacionamento do veículo com ocupação do espaço superior ao seu perímetro) de autocaravanas ou similares em áreas de Rede Natura 2000, assim como áreas protegidas e zonas abrangidas pelos Planos de Ordenamento da Orla Costeira, exceto no caso dos locais expressamente autorizados para o efeito. Em caso de incumprimento, o valor da coima é de 120 a 600 euros.

No restante território, e na ausência de regulamento municipal para a atividade, é permitida a pernoita de autocaravanas homologadas pelo Instituto da Mobilidade e dos Transportes, IP, durante o período máximo de 48 horas no mesmo município, exceto os locais expressamente autorizados para o efeito, para os quais não se estabelece qualquer limite de pernoitas. O valor da coima varia entre 60 e 300 euros em caso de incumprimento.

Esta alteração à lei acalma a revolta de alguns fãs de autocaravanismo. Antes de a legislação ter sido mudada, entrevistámos João Morgado. Este consumidor não tem dúvidas: a proibição de pernoita fora dos locais para o efeito podia afastar pessoas: "O artigo 50.º-A é um artigo discriminatório. Posso dormir num banco de jardim, dentro de um carro, mas se tiver uma autocaravana, com casa de banho, quarto, cozinha, sala, eletricidade e esgoto não posso dormir.” Margarida Gomes reforçava a crítica e destacava youtubers, seguidos por milhares de pessoas, que agora diziam “Portugal, não”.

Para João Morgado, “era preciso acabar com o Artigo 50.º-A. Julgo que o objetivo é pegar nas autocaravanas e colocá-las nos parques moribundos”. E partilha que “nas áreas de serviço de autocaravanas (ASA) não há dificuldades. Na Régua, por exemplo, há uma ASA quase no centro da cidade, em que se paga três euros, com eletricidade, e onde podemos fazer tudo como a limpeza de cassetes [depósito para onde vão os resíduos sanitários]. Há locais onde pagamos nove euros com tudo incluído”.

Muitos estreiam-se neste tipo de turismo. Se pondera juntar-se ao grupo, planeie a viagem e verifique onde pode parar antes de se fazer à estrada. Existem áreas de serviço por todo o País, com zona para pernoitar, e estações de serviço onde pode abastecer-se com água potável e despejar águas residuais e sanitas químicas, bem como resíduos sólidos. Aqui, conta com energia elétrica para carregar as baterias da autocaravana. Descubra onde encontrar essas áreas e estações no site da CampingCar Portugal ou na Associação Autocaravanista de Portugal.

Alugar autocaravana custa 160 euros por noite

A oferta de autocaravanas disparou no último ano. Entre março e abril de 2021, contactámos várias empresas e pedimos orçamento da versão mais barata para uma família de quatro pessoas. Explicámos que o plano passava por começar férias na cidade da empresa em análise. Pedimos propostas para junho e para a semana de 9 a 15 de agosto e fim de semana 13 a 15 de agosto. Alugar uma autocaravana com quatro lugares custa, em média, 161 euros por dia, em agosto.

 Sites de aluguer de autocaravanas Preço por dia
Azores Trip Campers agosto: € 190, mínimo 10 dias
Camperline agosto: € 180, mínimo 7 dias
Campervan Portugal  agosto: € 109
Campilider agosto: € 210, mínimo 7 dias 
Gofree Caravans  agosto: € 185, mínimo 7 dias
Indie Campers  agosto: € 135, mínimo 7 dias
McRent agosto: € 190, mínimo 10 dias
Move This Caravan  agosto: € 95, mínimo 6 dias
Siesta Campers agosto: € 140, mínimo 7 dias 
The Jolly Van agosto: € 180, mínimo 7 dias

Limpar sanita, atestar depósito e prestar atenção aos detalhes do contrato

A investigação não poderia estar concluída sem uma análise dos termos e das condições das empresas de autocaravanas. Focámo-nos na experiência de navegação durante a reserva online e confrontámos a informação já enviada com o que estava em cada site.

Não detetámos abusos, mas o seguro, as franquias, as cauções e as obrigações na devolução da viatura merecem atenção antes de assinar contrato. Para vários fatores, a resposta “depende na hora”/“logo se vê” pode esconder perigos e despesas extra. Por exemplo, na devolução da autocaravana, se não cumprir tudo o que as empresas exigem, a fatura pode disparar (quilómetros, estado de limpeza e depósito atestado). Por exemplo, a Gofree Caravans cobra 350 euros pela perda de chaves. Em caso de atraso, obriga o cliente a pagar, por dia, o valor correspondente a duas vezes a tarifa diária. Mas a lista continua. Se o depósito não estiver cheio, é cobrado o combustível em falta acrescido de 30 euros. Se não devolver com o interior limpo e os depósitos de água residuais e WC limpos, paga 75 euros.

Quase todas as empresas exibem alguma criatividade. Por exemplo, na Move This Caravan, por qualquer atraso na devolução por mais de 30 minutos serão cobrados 30 euros; por mais de uma hora de atraso serão cobrados 60 euros; e por mais de duas horas de atraso, o cliente paga o valor de uma diária. A mesma empresa estipula que deve entregar o tanque de combustível cheio e o depósito das águas residuais e a cassete de WC vazios. Caso contrário, cobra os seguintes valores: 65 euros para a cassete não vazia e limpa e águas residuais não despejadas. Se não atestar de combustível, paga o valor e mais 30 euros. A liberdade exige disciplina.

Fumar na viatura, animais não autorizados, países proibidos e ocupação excessiva são situações fortemente penalizadas.

Atlântico e destinos para explorar

O sol acaba de nascer na Ericeira. A nossa equipa de reportagem acorda na ASA fresquinha de Mil Regos e voa para a Praia dos Coxos, na freguesia de Santo Isidoro, coração da reserva mundial do surf. O café está pronto a dez metros do mar.

Água, eletricidade, gás e café: tudo a bordo da autocaravana. 
Água, eletricidade, gás e café: tudo a bordo da autocaravana.

Próxima paragem? Margarida Gomes não aconselha o litoral, mas a Estrada Nacional 2. “Podemos fazer desvios para conhecer aldeias históricas e há desvios que nos levam a praias fluviais fantásticas.” Para a primeira experiência, João Morgado recomenda um programa que fez com os netos: Miranda do Corvo e Lousã, onde há um parque biológico com espécies autóctones, Tomar, e depois o fluviário de Mora. Em Montargil, foram todos ao banho, e regressaram pela Serra da Estrela e Seia. “Tudo numa semana, sem correrias nem horários.”

“Liberdade e mobilidade não têm preço”

João Morgado, 68 anos, reformado, de Aveiro, tem uma autocaravana há sete anos, mas a primeira viagem foi há 40. “Aluguei porque um potencial comprador deve experimentar primeiro”, recomenda. Uma experiência de dois dias ajuda a ter a certeza. Começou com uma autocaravana mais pequena. Mais tarde trocou por uma superior.

“Uso a app  park4night com coordenadas e rotas ideais para pernoitar”, recomenda João Morgado. 
“Uso a app park4night com coordenadas e rotas ideais para pernoitar”, recomenda João Morgado.

Viajar com a casa atrás pode acabar em pesadelo?

Estamos a falar de um espaço reduzido. Os recursos têm de ser otimizados: espaço, consumos de água, de eletricidade, de tudo e mais alguma coisa. Numa autocaravana é tudo muito compactado.

Gostou da primeira aventura?

Nessa viagem a Santiago de Compostela, por exemplo, a autocaravana serviu de dormitório porque ia de bicicleta, mas deu para perceber logo algumas coisas. Por exemplo, que a água facilmente acabava. Hoje, a autonomia é muito maior, mas naquela época um ou dois dias de água potável seria o máximo. Atualmente, há autocaravanas com uma autonomia de três ou quatro dias e em alguns casos até sete dias de autonomia.

Esta experiência de férias é para todas as carteiras?

Não é barato, mas temos de colocar no prato da balança vários fatores. A liberdade, por exemplo. Podemos pagar um pacote no hotel x, durante 8 ou 15 dias, e se não gostarmos temos de ter paciência. Acabamos por ficar. Com uma autocaravana, temos uma liberdade que não é mensurável. Ir para onde quiser e, se não gostar, ir para outro sítio qualquer. Se contabilizarmos o custo e a liberdade que nos traz, não sei se é caro ou barato... Vejo cada vez mais jovens a viajar de autocaravana, e é engraçado ver sorrisos de orelha a orelha. A liberdade e a satisfação não têm preço.

“Arrancar ou ficar se me apetecer”

Margarida Gomes, 59 anos, designer, fez a primeira viagem aos 19 anos com destino a França. Levou quatro amigos. O principal fator de atração foi a liberdade e poderem arrancar ou ficar. Aproveitaram para caminhadas e passeios de caiaque.

“A nova lei pode afastar muita gente de Portugal”, alerta Margarida Gomes. 
Margarida Gomes comprou a autocaravana em 2019: "Posso ficar em qualquer parte onde haja net e onde possa continuar a trabalhar."

Alguma vez alugou autocaravana?

Não, mas efetivamente, para quem nunca teve, é um bom ponto de partida. Como tenho amigos com autocaravanas, sempre tive o privilégio de viajar com eles.

Quando investiu na autocaravana?

Há seis anos comecei a fazer por isso e em março de 2019 decidi comprar. Para viver na autocaravana e não apenas fazer férias ou viajar... Estava a organizar a vida para ir para Marrocos em 2020, mas aconteceu a pandemia e vim para o Algarve. Agora, tenho uma quinta e estou a organizar tudo para ficar aqui, na autocaravana. Para trabalhar, preciso de um computador e net e estou bem equipada. Posso ficar em qualquer parte onde haja net e onde possa continuar a trabalhar.

Quando terminar a pandemia, planeia viajar pelo mundo enquanto trabalha?

Se conseguisse fazer isso durante dois anos, por exemplo, gostava de fazer a América Latina. A ideia seria comprar uma autocaravana nos Estados Unidos da América e descer até à América Latina e, de regresso, vendê-la. Gostava de fazer a viagem por Argentina, Chile e Peru. É bom traçar o que vamos fazer, mas devemos falar com a população local, porque essas pessoas sabem as coisas que não se encontram na net.

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