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Pesticidas em maçãs e peras: há motivo para alarme?

Um estudo recentemente divulgado afirma que as maçãs e as peras portuguesas estão entre os frutícolas europeus com maior quantidade de "resíduos de pesticidas perigosos". Saiba se há motivo para preocupação.

26 maio 2022
pessoa a analisar peras com uma lupa

iStock

A conclusão é de um estudo da organização não-governamental (ONG) Pesticide Action Network: as peras e as maçãs produzidas em Portugal estão entre os frutícolas com maior quantidade de "resíduos de pesticidas perigosos", na Europa. A análise afirma que 85% das peras e 58% das maçãs nacionais testadas revelaram sinais de “contaminação por pesticidas perigosos”. O estudo da ONG, que representa organizações não-governamentais, instituições e pessoas de vários países com o objetivo de minimizar os efeitos negativos dos pesticidas perigosos, analisou 97 170 amostras de variedades de fruta fresca cultivada na Europa, entre 2011 e 2019, e revela que as taxas de contaminação com pesticidas nos frutícolas terão duplicado (mais 53 por cento) no período em análise.

Segundo o documento, “a utilização de pesticidas perigosos na Europa está a subir e não a descer”, uma tendência que, a confirmar-se, contraria a estratégia “Do prado ao prato”, apresentada pela Comissão Europeia em 2020, que pretende transformar a forma como os alimentos são produzidos na União Europeia (UE), reduzindo a pegada ambiental dos sistemas alimentares e diminuindo para metade a utilização de pesticidas e fertilizantes na produção agrícola.

Os autores do estudo dizem ter-se concentrado em cerca de 50 “agentes químicos perigosos” usados para fazer pesticidas cujos resíduos terão sido detetados nos frutícolas estudados. No entanto, não indicam as quantidades de resíduos encontrados.

Quando são aprovados, os pesticidas são sujeitos a ensaios toxicológicos e têm de fazer prova de que, quando usados de acordo com as regras e boas práticas definidas, não causam danos. Importa, por isso, esclarecer o que os autores do estudo entendem como “pesticidas perigosos” e, sobretudo, clarificar se os resíduos encontrados estavam acima dos limites máximos de resíduos (LMR) permitidos na UE. Os pesticidas são produtos químicos que podem ser prejudiciais à saúde, contudo, se em causa estiverem produtos homologados para utilização na UE e dentro do limite máximo de resíduos, à partida, não há perigo para o consumidor. Lembramos também que há controlos regulares a estes produtos e é pouco frequente encontrar hortofrutícolas em incumprimento dos limites máximos de resíduos definidos na União Europeia.

Produtores nacionais cumprem a lei

Em 2021, a DECO PROTESTE fez um estudo para perceber se os limites legais dos pesticidas estavam a ser cumpridos pelos produtores nacionais de pera e maçã convencional e biológica. Foram testadas 20 maçãs e 20 peras pré-embaladas e vendidas a granel em dez cadeias de supermercados e em 13 lojas especializadas na venda de produtos naturais e biológicos.

A análise incluiu um total de 344 substâncias ativas, algumas aprovadas, outras não, e os resultados mostraram que quase todos estavam em cumprimento dos limites máximos de resíduos definidos na União Europeia: 38 dos 40 produtos analisados não acusaram desvios.

Pesticidas são um mal necessário?

Para reduzir a perda de rendimento das culturas agrícolas e combater pragas e doenças, os agricultores recorrem a produtos fitossanitários ou a pesticidas. Além de defenderem as culturas antes e após a colheita, estes produtos contribuem para melhorar ou proteger o rendimento das culturas e, se forem utilizados de forma responsável, garantem ainda o abastecimento de fruta e legumes com boa qualidade e aspeto, a um preço reduzido, para que sejam acessíveis a todos os consumidores.

No entanto, por serem produtos químicos, são potencialmente perigosos para a saúde e para o meio ambiente e não são totalmente inofensivos. A sua utilização deve, por isso, respeitar determinadas quantidades e condições. Na União Europeia, as autoridades fixaram limites máximos de resíduos de pesticidas que podem existir nos hortofrutícolas para assegurar, por um lado, as boas práticas agrícolas e, por outro, garantir uma menor exposição dos consumidores a estes químicos. A presença destas substâncias é fiscalizada regularmente por programas nacionais e comunitários.

Além disso, para que a utilização de um produto fitossanitário seja aprovada na Europa, a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) faz uma avaliação rigorosa dos seus efeitos tóxicos agudos e crónicos para comprovar que não tem consequências nocivas diretas e indiretas na saúde humana ou animal nem impacto negativo na qualidade das águas subterrâneas. Ainda assim, e dado que alguns fatores são difíceis de prever, para tentar eliminar os riscos da exposição aos pesticidas, a sua utilização deve ser reduzida ao mínimo.

Como reduzir o consumo de pesticidas em casa

Embora seja pouco frequente encontrar alimentos em incumprimento dos limites máximos de resíduos definidos na União Europeia, as frutas e os legumes que compra podem estar contaminados com resíduos de pesticidas. No entanto, é possível reduzir ou eliminá-los, em casa, quando prepara os alimentos.

  • Lavar a fruta e os legumes reduz o teor de pesticidas ou outros químicos que, eventualmente, possam estar presentes. Nos legumes de folha, lave cada folha individualmente. Embora a água tépida ou quente seja mais eficaz, não é aconselhável para legumes de folha destinados a serem consumidos crus (por exemplo, em saladas), pois altera a sua frescura.
  • Descascar frutas e legumes é uma forma muito eficaz de eliminar resíduos de pesticidas que se depositam na superfície, ainda que isto implique reduzir a ingestão de alguns nutrientes presentes na casca (por exemplo, fibras e vitaminas). Quando preparar legumes de folha, remova as folhas exteriores, onde normalmente se concentram os resíduos de pesticidas.
  • Cozinhar os legumes também contribui, nalguns casos, para reduzir a quantidade de resíduos químicos. O tratamento térmico pode destruir as moléculas sensíveis ao calor e, assim, eliminar pesticidas particularmente voláteis. Noutros casos, a água da cozedura ajuda a diluir e a lavar os resíduos de pesticidas.
  • Seguir uma dieta variada e consumir diferentes frutas e legumes, não só diversifica os nutrientes que ingere, o que é bom para a saúde, como reduz o risco de consumir quantidades nocivas de resíduos de pesticidas.

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