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Guerra aberta ao consumo de sal

20 janeiro 2016
consumo de sal DECO

20 janeiro 2016

A meta está definida: reduzir o consumo diário de sal abaixo de 10 gramas por dia até 2020. A análise de 250 alimentos e 50 refeições adquiridas em restaurantes revela que ainda há margem para reduzir a quantidade. 

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Verificámos a quantidade de sal em produtos embalados e em refeições adquiridas em restaurantes de Lisboa e Porto. No final, comparámos os resultados com os dos estudos realizados em 2005 e 2011. Veja as conclusões no menu lateral.

Metas definidas em novembro de 2015
Colocar a ingestão diária de sal dos portugueses abaixo de 10 gramas é o objetivo que Portugal deve cumprir até 2020. Esta foi a meta proposta pelos especialistas que participaram no II Fórum do Sal, organizado pela Sociedade Portuguesa de Hipertensão (SPH).

Realizado nos dias 26 e 27 de novembro, o primeiro dia do encontro foi dedicado à reunião de peritos sobre o sal e a saúde dos portugueses e o segundo à apresentação das principais conclusões da análise do dia anterior e ao debate “Portugal, sal, que caminhos?”.

Ingerimos menos sal mas ainda estamos longe do recomendado
O consumo de sal em excesso é uma das causas para o agravamento da hipertensão arterial, o principal fator de risco das doenças cardiovasculares. Sendo esta a principal causa de morte no nosso país, torna-se imperativo reduzir o consumo de sal na alimentação dos portugueses. E foi exatamente sobre isso que se falou no encontro que reuniu no auditório da Assembleia da República, especialistas portugueses e internacionais, bem como figuras ligadas ao Governo, Saúde, Restauração, Indústria e Consumidores.

De 2009 até hoje, os portugueses já reduziram em 1,7 gramas o sal que consomem. Mas ainda assim, e apesar de cada vez ser dada informação sobre os riscos da hipertensão e sobre os malefícios do sal em excesso, consomem o dobro da quantidade recomendada: cerca de 10 gramas, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) aconselha que não se ultrapasse os 5 gramas por dia.

Face a este cenário os participantes do debate foram unânimes: houve progressos nos últimos anos, mas ainda continuamos com um longo caminho para percorrer. “É essencial o trabalho em conjunto entre consumidores, indústria e Governo. Tem-se assistido a progressos e devem ser seguidos os bons exemplos”, afirmou Dulce Ricardo, da DECO.

Dulce Ricardo, da DECO, destacou a importância da colaboração entre consumidores, indústria e Governo.
Dulce Ricardo, da DECO, destacou a importância da colaboração entre consumidores, indústria e Governo.
Adoção do semáforo na rotulagem dos alimentos

A necessidade do semáforo de cores na rotulagem dos alimentos, que indica o seu teor de sal (vermelho para os alimentos com muito sal, amarelo com sal moderado e verde com pouco sal), foi uma das medidas sugeridas no Fórum. “Acreditamos que esta medida iria ajudar muito as famílias portuguesas a escolherem os melhores alimentos”, afirmou o presidente da SPH José Mesquita Bastos. No entanto, a medida não reuniu consenso entre os presentes, nomeadamente entre os representantes da restauração e da indústria. Apesar disso, houve quem a defendesse veementemente: “O semáforo na rotulagem ajuda as pessoas a escolherem os produtos de forma consciente, independentemente do seu nível de literacia. Desde crianças a idosos iletrados, qualquer um deles consegue interpretar este sistema de cores”, sustentou um membro da SPH presente na plateia.




O presidente da SPH José Mesquita Bastos apoiou a introdução de um semáforo de cores nos rótulos.
O presidente da SPH José Mesquita Bastos apoiou a introdução de um semáforo de cores nos rótulos.
Apostar na educação do consumidor
A promoção de campanhas educativas dirigidas à redução do consumo excessivo de sal e que orientem uma escolha mais adequada dos alimentos ingeridos é uma medida fundamental e que deve ser reforçada segundo os especialistas. João Breda, representante da Organização Mundial da Saúde (OMS), reconheceu que ainda há muito por fazer no seio das famílias porque “os portugueses utilizam muito sal na confeção culinária e têm o hábito de colocar o saleiro na mesa”. E acrescentou: “Enquanto, no Reino Unido, metade do sal consumido provém de alimentos processados, em Portugal, a maioria do que consumimos vem das nossas cozinhas”. 

A intervenção junto das crianças foi também apontada como uma das prioridades devido ao seu elevado potencial de influência junto das famílias. Por isso, além da legislação do semáforo nutricional nas embalagens, a SPH pretende implementar, a longo prazo, uma política de educação nas escolas. “À semelhança do que aconteceu com a reciclagem, gostaríamos que fossem também os mais novos a incentivar os mais velhos a consumir menos sal”, explicou Mesquita Bastos, que quer ainda “reformular a dieta nas cantinas escolares”.

João Breda, representante da Organização Mundial da Saúde (OMS), salientou que há um trabalho a desenvolver junto das famílias.
João Breda, representante da Organização Mundial da Saúde (OMS), salientou que há um trabalho a desenvolver junto das famílias.
Redução progressiva da quantidade de sal nos alimentos
Os portugueses estão habituados a consumir grandes quantidades de sal muito devido à cultura gastronómica fortemente enraizada. “Mas pequenas reduções no consumo podem trazer grandes benefícios para a saúde das populações”. A medida foi defendida por todos os intervenientes, nomeadamente por Graham MacGregor, presidente do Consensus Action on Salt & Health e um dos principais responsáveis pela redução do consumo de sal no Reino Unido. “A forma mais eficaz de reduzir o sal passa por convencer a indústria a diminuir gradualmente a quantidade de sal dos seus produtos. Foi isso que fizemos no Reino Unido e fomos bem-sucedidos”, contou.

O especialista mundial na questão do sal acrescentou ainda que “se o fizerem progressivamente, os consumidores não vão reclamar porque não dão conta da alteração e continuam a consumir os produtos”. Além de um consumo máximo de 10 gramas por dia até 2020, o fórum concluiu que “é fundamental intervir junto dos industriais para que estes reduzam a quantidade de sal que adicionam aos alimentos”. Os especialistas consideraram “excelentes” os resultados da lei que estabelece os limites máximos de teor de sal no pão, mas admitem que se deve ir mais longe, reduzindo ainda mais o teor de sal no pão e noutros alimentos. E isso pode passar por “estabelecer políticas de incentivos a produtores e vendedores que reduzam a quantidade de sal nos alimentos”, como sugeriu Pedro Graça, diretor do Programa de Alimentação Saudável da Direcção-Geral de Saúde (DGS), com o consenso dos restantes participantes.

No auditório da Assembleia da República, além de Mesquita Bastos, presidente da SPH, estiveram Dulce Ricardo, da DECO; Maria Antónia Calhau, do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge; Graham MacGregor, presidente do Consensus Action on Salt & Health; Joel Menard, professor da Universidade Paris Descartes; Jorge Polónia, professor de Medicina da Faculdade Porto; Luís Martins, Diretor do Serviço de Cardiologia do Centro Hospitalar Entre Douro e Vouga E.P.E.; João Breda, da OMS, e Pedro Graça, da DGS. O debate contou ainda com a moderação da jornalista Marina Caldas.
Graham MacGregor, presidente do Consensus Action on Salt & Health, defende a redução de sal nos produtos industriais.
Graham MacGregor, presidente do Consensus Action on Salt & Health, defende a redução de sal nos produtos industriais.

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