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Filetes de pescada congelada: gelo ao preço de peixe

Há diferenças entre o valor nos rótulos e o peso efetivo dos filetes de pescada, um problema que persiste no peixe congelado. Também encontrámos um número anormal de espinhas nalguns filetes. 

  • Dossiê técnico
  • Nuno Lima Dias e Susana Costa Nunes
  • Texto
  • Ana Catarina André e Deonilde Lourenço
28 maio 2019
  • Dossiê técnico
  • Nuno Lima Dias e Susana Costa Nunes
  • Texto
  • Ana Catarina André e Deonilde Lourenço
filetes pescada

iStock

O nosso estudo a 20 amostras de filetes de pescada ultracongelada demonstrou que 40% continham um peso líquido escorrido inferior ao que constava do rótulo. Num dos casos, a diferença aproximava-se dos 20% (Golfipen), o que, na prática, significa menos 124 gramas de peixe no prato, uma dose suficiente para uma pessoa. Em algumas situações, detetámos também que, ainda que o peso líquido escorrido estivesse corretamente indicado, havia produtos com excesso de vidragem, isto é, a película de gelo que envolve e protege o peixe. Em cinco amostras, os valores de vidragem chegaram aos 30 por cento.

Ver resultados do teste 

Na análise sensorial, em cru e em cozido, encontrámos filetes de tamanho e espessura diferentes, amarelados, desidratados e queimados, com manchas de sangue e ainda extensas fendas no músculo. Mais: algumas embalagens estavam abertas ou perfuradas, continham restos de plástico ou de crustáceos, gelo solto e outras ainda emanavam um odor atípico, característico de um produto oxidado. As deficiências estenderam-se aos filetes já cozinhados, com alteração da cor e do cheiro. Alguns tinham falta de firmeza, pouca suculência e pouco sabor.

É mesmo pescada?

Verificámos se as espécies apresentadas nos rótulos eram realmente da família Merluccidae, termo científico para pescada. Na Profsea, os filetes não eram de pescada, mas de escamudo-do-alasca (Gadus chalcogrammus), uma espécie da família do bacalhau, de baixo valor comercial, muito frequente no Pacífico Norte. Realizámos a análise em quatro lotes diferentes e o resultado foi sempre o mesmo, razão pela qual eliminámos este produto.

O nosso teste incluiu, também, uma análise parasitológica. Em duas amostras (da Auchan e da Ondagel), nada encontrámos. Nas restantes, descobrimos uma forma larvar morta de Anisakis, que não representa uma ameaça, bem como a presença de Kudoa. O último produz enzimas que levam à destruição do tecido muscular do peixe (é por isso, por exemplo, que as sardinhas ficam pisadas ou moídas, como habitualmente as classificamos). Mesmo assim, na nossa análise parasitológica, não detetámos um número de parasitas muito elevado.

Espinhas a mais

Tratando-se de filetes, não seria expectável encontrar espinhas. Com uma espessura entre 5 a 10 mm podem picar ou arranhar a garganta. Após a análise, descobrimos algumas de maiores dimensões em quatro amostras. Na Pêche Océan, chegámos mesmo a encontrar 16 espinhas em 100 gramas de produto. Ora, sendo os filetes uma opção muitas vezes recomendada para as crianças, o mínimo que pode exigir-se aos fabricantes é prestarem mais atenção a este aspeto.

 

 

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