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Comida vegetariana até quatro vezes mais cara do que a tradicional

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A ervilha pode inflacionar o custo de almôndegas vegetarianas, moldadas a partir da sua transformação. Superam em nove euros a versão com carne. Mas as diferenças podem ir ainda mais longe. Ambicionar um “queijo” vegan chega a ficar, por quilo, 16 euros mais caro do que optar pelo verdadeiro flamengo.

  • Dossiê técnico
  • Susana Costa Nunes
  • Texto
  • Deonilde Lourenço
25 novembro 2021
  • Dossiê técnico
  • Susana Costa Nunes
  • Texto
  • Deonilde Lourenço
Produtos vegetarianos versus produtos clássicos

iStock

O clássico e o moderno, a versão tradicional e a sua reinvenção vegetariana ou vegan, normalizaram-se nos lineares dos supermercados. E o que dizer do preço? Poder-se-ia crer que as receitas sem proteína animal teriam um custo idêntico, ou até inferior, uma vez que os ingredientes vegetais, superficialmente considerados, não atingem custos proibitivos. A realidade, contudo, mostra-nos o equívoco. Muitos produtos, mais ou menos processados, não estão ao alcance de qualquer vegetariano ou de quem gosta de navegar, na hora de comer, entre regimes e tendências.

Os rótulos vegetarianos, com abundantes designações em inglês e ambição de conquista de mercado, são frequentemente mais caros. Comprámos mais de 50 produtos, de dez marcas. A diferença é substancial, nalguns casos nos antípodas, como demonstram os nossos cálculos, elaborados com base no custo por quilo no frente-a-frente entre versões vegetarianas e tradicionais de queijo fatiado, carne picada, hambúrgueres, almôndegas, douradinhos e salsichas. Os parentes vegetarianos, muito semelhantes aos clássicos na aparência, mas não na receita de base, não escondem a intenção de proporcionar experiências sensoriais semelhantes a repastos à base de carne e de peixe. O marketing permite a duplicação do nome nas refeições de proteína vegetal e animal. Em 2020, a agroindústria levou o debate ao Parlamento Europeu, argumentando que geraria confusão. Mas em vão. Chamar bifes a produtos de origem 100% vegetal é consentido.

 
A versão vegan de "queijo", face à tradicional, por quilo, é 16 euros mais cara.

 
Um hambúrguer vegetariano, neste caso, é mais caro dez euros por quilo, do que a versão de carne.

O que explicará a inflação de preço? Justificar-se-ão as diferenças apontadas na nossa investigação aos preços de sete categorias de produtos vegetarianos ou vegan, em contraposição aos clássicos? Uma única certeza: os produtos vegetarianos e vegan não devem ser alvo de um custo discriminatório. Na hora das compras, o preço é preponderante. Importa, pois, que estas refeições tenham um custo similar ao das tradicionais, para que funcionem, na prática, como alternativas.

"Queijo" vegan: valor a quadruplicar

Uma vez desvendados preços mais pesados nas refeições de origem vegetal, na generalidade, vejamos a temática na especialidade. Com exceção da Iglo Green Cuisine, que, nalguns produtos (nuggets e fingers de proteína vegetal), consegue custos equivalentes, ou até mais baixos, do que os clássicos, a média dos restantes exemplos denuncia um incremento, na versão vegetariana, entre os 11 e os 104 por cento.

Os exemplos mais paradigmáticos são os do queijo flamengo, e do seu primo vegan, à base de gordura de coco, que, por quilo, custa 21,90 euros. Ou seja, mais 16 euros do que o correspondente tradicional. Os hambúrgueres vegetarianos também requerem maior gasto. O da marca Continente, a 16,81 euros por quilo, exige mais 10 euros do que o similar no formato clássico. Na carne picada e nas almôndegas, a diferença ronda os 9 euros, enquanto as salsichas enlatadas de soja e de carne distam seis. Como justificam o custo superior as marcas que abandonaram a lógica habitual da carne e do peixe e que criaram um ramo exclusivo de proteína vegetal, com nomes inspirados nas refeições tradicionais – Gama Vegalia, da Nobre, Veggie Lovers, da Izidoro, Powered by Plants, do Continente, Plant Based, do Pingo Doce, My Veggie Day, do Aldi, Next Level, do Lidl, Yes It’s Pizza, da Dr. Oetker, entre outras? O mercado em crescimento não compensa? É o preço a pagar por uma opção que tomou contornos de moda?

 
Piza e panados escapam à escalada de preços, na diferença média, em euros, entre produtos vegetarianos e tradicionais.

Mais caro porquê?

Os fabricantes argumentam com “elevados custos de produção” e “mercado pequeno, que não permite ganhos em grande escala”... A Iglo, que produz a Green Cuisine, adianta que o investimento em investigação e desenvolvimento tecnológico, bem como as questões de eficiência, encarecem as matérias-primas e a produção. Nesta marca, o Burguer e as Almôndegas de Proteína Vegetal, a 19,95 e a 16,63 euros por quilo, respetivamente, destacam-se como os mais caros. As receitas incluem 60% e 73% de proteína de ervilha reidratada. O processo de extração da proteína é dispendioso e complexo, alega a marca. O Continente e o Aldi citam razões idênticas. Tal como o Lidl, que salienta a redução da emissão de gases com efeito de estufa destes produtos, que fazem a diferença face aos preparados de carne bovina.

Confrontámos os ingredientes de alguns produtos e verificámos que os preços elevados não são exclusivos da proteína de ervilha. A quantidade desta, ou de soja ou trigo desidratados, sofre grandes oscilações, que, contudo, não se refletem no preço.

O lento abandono da carne e do peixe

Entre a população portuguesa, 2,1% não comem carne ou peixe, e 0,5% são vegan. O número de vegetarianos quadruplicou nos últimos dez anos. Dez por cento dos portugueses dos 25 aos 74 anos são flexitarianos, ou semivegetarianos, segundo um inquérito que realizámos entre abril e junho de 2019. Cerca de duas em três pessoas estão a transitar para uma alimentação sem carne, uma tendência em franca expansão nos Estados Unidos da América e no Reino Unido. 

Preocupações com a saúde e com o impacto ambiental guiam o desvio de uma dieta de peixe e de carne para aquelas que os excluem – vegetariana ou vegan –, ou para a flexitariana, na qual se reduz a proteína animal. Recomenda-se reduzir as carnes vermelhas, cuja produção é menos sustentável, pois existem indícios de que, se ingeridas em excesso, podem facilitar o desenvolvimento de certos tipos de cancro (cólon e reto). O movimento ocorre, estima-se, em 70% da população mundial. No mundo contemporâneo, o decréscimo da carne no prato já é mais do que uma tendência. É uma forma de encarar um mundo, também pressionada pela emergência climática. E, quando as razões são justas, o que se paga por esta dieta não deveria ser inflacionado.

 

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