Dossiês

Salmão fumado, camarão e atum pouco sustentáveis: o que pode fazer o consumidor

02 dezembro 2016 Arquivado
Teste às políticas de responsabilidade social das empresas

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As nossas investigações revelam que marcas de salmão fumado, camarão e atum têm poucas iniciativas ao nível ambiental e social. Em alguns casos, os direitos dos trabalhadores ao longo da cadeia de produção não estão acautelados. Saiba como pode contribuir para esta realidade mudar.

Camarão e gambas com abusos laborais

Em 2013, investigámos o funcionamento do setor de produção e comércio de camarão e de gambas. Violação dos direitos dos trabalhadores, destruição de ecossistemas, apanha ilegal e poluição foram problemas visíveis ao longo da cadeia de produção.

Nos anos 70, a criação de camarão foi considerada uma forma de aliviar a pobreza. Mas a procura impulsionou a proliferação descontrolada de propriedades e começaram, entre outros, os problemas com a apropriação das terras e a destruição dos habitats originais. Assim aconteceu no Bangladesh, Brasil, Equador, Índia, Indonésia, Malásia, Tailândia e Vietname. O delta do Mekong (Vietname), com cerca de 40 mil km2, foi reconvertido para aquacultura, nomeadamente para a criação intensiva de camarão. A elevada procura internacional levou os produtores industriais a implementar os piores métodos: desflorestação, produtos químicos e tratamento com antibióticos, ração alimentar duvidosa e poluição do meio ambiente. A água poluída das culturas intensivas segue para canais que penetram nas bacias de produção dos pequenos produtores, destruindo a criação de camarão. 

A qualidade da água das bacias não é verificada nas produções intensivas, originando numerosas bactérias. A água do delta do Mekong e do mar da China não é controlada. Os investigadores reportaram nas análises que, após a lavagem das mãos, a contaminação de microbactérias era superior.

Lei do mais forte

No Equador, primeiro país a exportar para a União Europeia, estima-se que 38% dos mangais tenham sido destruídos para deixar espaço às “fazendas de camarão”. Os mangais, florestas tropicais que se desenvolvem na costa, criam raízes na água salgada. A população local serve-se do mangal para subsistir, já que pescam e apanham peixe, crustáceos e moluscos para se alimentarem e venderem. A expansão das fazendas não os favoreceu. Por um lado, são negócios que empregam poucas pessoas, raramente recrutadas na zona. Por outro, a criação intensiva e o uso de medicamentos destroem a fauna e a flora selvagens. Há menos variedade de espécies e as áreas livremente exploradas também foram reduzidas. Para os pescadores, cada vez é mais difícil abastecerem-se e trabalham num clima violento.

Nos últimos anos, assistiu-se a mortes relacionadas com a defesa quase militar das fazendas: valas eletrificadas, cães de guarda e até seguranças armados que disparam indiscriminadamente. Os donos das fazendas justificam-se afirmando que o Governo autorizou as armas para se defenderem dos “piratas”, que atacam barcos pesqueiros e roubam a colheita das propriedades.

Trabalhadores ou escravos?

Na Ásia, a lista de problemas da indústria da gamba e do camarão assume contornos preocupantes. A Tailândia, por exemplo, pratica métodos muito agressivos, como a pesca de arrasto, que proporciona peixe miúdo abundante para alimentar os crustáceos. O mar não consegue renovar-se. Segundo a Greenpeace Tailândia, há 50 anos conseguia-se pescar 300 quilos de peixe numa hora. Agora, essa capacidade está reduzida a 25 quilos.

Os abusos laborais são inúmeros. A maioria dos trabalhadores são imigrantes birmaneses ilegais, receosos de que uma denúncia os leve à deportação. A corrupção policial não ajuda e o tráfico de pessoas para a indústria esconde violência. O Governo reconhece a existência de trabalho infantil e o uso de práticas esclavagistas: jornadas superiores a 12 horas, tráfico de pessoas, restrição de movimentos, entre outros. As fábricas onde os camarões são pelados testemunham um trabalho penoso, feito em pé, em ambiente húmido e cheiro desagradável. A rede de contratações e de subcontratações é intrincada e complica a investigação.

Pense duas vezes antes de comprar camarão e gamba descascados. No processamento deste marisco foi reportada a utilização de mão-de-obra infantil.