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Obesidade infantil: "Número de consultas está muito aquém do ideal"

Num país onde o problema da obesidade infantil é grave, as consultas estão mal representadas, afirma Ana Rito. A nutricionista defende proximidade com o poder local, para identificar políticas certas para as comunidades. E apela ao diálogo com a indústria para melhorar o perfil dos alimentos.

Ana Rito

Victor Machado

Nutricionista, investigadora principal do Childhood Obesity Surveillance Initiative (COSI) em Portugal, membro do Centro Colaborativo em Nutrição Infantil, da Organização Mundial da Saúde/Europa, e investigadora do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, alerta para a gravidade da obesidade infantil no nosso país e para a importância da alimentação. Estas preocupações estão também patentes no episódio do podcast da DECO PROTESTE dedicado à obesidade infantil.

A recomendação para o consumo de açúcar está nos 50 gramas diários, mas a OMS diz que não devíamos ultrapassar os 25.

Quando falamos de açúcar, falamos de calorias vazias. O açúcar não tem qualquer interesse na alimentação. Estou a falar de açúcares adicionados, nos produtos açucarados, e daqueles que se encontram nos alimentos. Estes 25 gramas são efetivamente o ideal.

Analisámos 190 iogurtes. Um natural pode conter 2,9 gramas de açúcar por 100 gramas, e o de fruta dispara para 19. Os valores surpreendem-na?

Não. Estes estudos são importantes para que se tenha consciência do que se compra. Em Portugal, ainda temos uma série de alegações que induzem em erro. É uma tarefa hercúlea. Estão sempre a aparecer embalagens e alimentos novos. A população portuguesa não tem literacia suficiente em saúde para fazer uma alimentação saudável. Mas é muito simples: basta resgatar a dieta mediterrânica e a roda dos alimentos. Um alimento com mais de 10% de açúcar deve ser preterido. Ao comermos iogurte com 16 gramas de açúcar, estamos a consumir uma quantidade exagerada de açúcar. E o problema é que não será o único alimento açucarado consumido num dia, ou com teor elevado de sal e de gordura. Não se pode isolar os alimentos. Temos de ver as implicações que têm na alimentação diária. A questão está sediada nos ambientes obesogénicos [que propiciam a obesidade]. É um ciclo. É obesidade a gerar obesidade. Famílias e crianças com comportamentos menos saudáveis, por falta de informação, escolhem o que dá mais energia, num volume menor e ao preço mais acessível. A concorrência é desleal, porque os alimentos processados são os mais acessíveis. Muitas famílias acham que o lanche de uma criança deve ser um pacote de batatas fritas. Dá energia, tem uma grande densidade calórica, mas nenhum conteúdo nutricional. Se fizermos sistematicamente erros alimentares, tornamo-nos doentes. Há uma maior consciência do que é uma alimentação saudável... para haver o comportamento ajustado, o passo é maior.

Há boas práticas, nos cuidados de saúde primários, no tratamento e na prevenção da obesidade?

A região dos Açores é um exemplo muito importante. Em Portugal, somos um modelo nessa matéria. Em 2008, ao fazermos o estudo de vigilância nutricional infantil (COSI), apercebemo-nos de que os Açores eram a região com maior prevalência de excesso de peso e obesidade infantil. A resposta foi imediata: uma consulta de obesidade infantil, com um nutricionista à frente, para acompanhar as crianças nos cuidados de saúde primários. Esta medida foi importantíssima para que, em três anos, baixasse a prevalência do excesso de peso e obesidade nos Açores. Foi uma medida estratégica para que alcançássemos, como país, esta tendência decrescente que observámos antes da pandemia. Estes dados, recolhidos a cada três anos, podem ser traduzidos em ações nas unidades locais de saúde, com uma estratégia muito integrada nos cuidados de saúde primários. Mas é algo a melhorar. A obesidade é um problema seriíssimo em Portugal, nos adultos e nas crianças.

A consulta de obesidade infantil está bem representada no País?

Não. Estamos muito aquém do que seria o ideal, e mais ainda, na resposta multidisciplinar. Para dar certo, vários profissionais têm de estar alinhados, ao nível da psicologia, da nutrição, do desporto... As consultas multidisciplinares são as que têm mais sucesso. Há, por exemplo, uma distribuição maior no Norte do que em Lisboa e Vale do Tejo. Nos Açores, a consulta está bem representada, mas na Madeira gostaríamos que houvesse mais.

Que avaliação faz do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável 2022-2030 (PNPAS)?

É abrangente. Está bem feito. A minha maior preocupação é que seja implementado, que se dirija à comunidade e que se saiba o que se está a fazer. Que não seja só um programa de identificação de áreas prioritárias para a saúde em Portugal ao nível da alimentação. O programa toca nos maiores erros alimentares encontrados na investigação. Em que famílias? E onde se encontram? O problema vai ser nas famílias com maiores dificuldades, as que cometem mais erros alimentares, as mais doentes e com menos possibilidades económicas. Como se intervém nessas famílias? Essa é a minha maior preocupação. Enquanto investigadora que trabalha com a comunidade, gostaria de ver mais implementação. Que fosse um programa executivo, que chegasse precisamente às famílias de que estamos a falar. Os municípios fazem esse equilíbrio, porque conhecem muito bem a sua comunidade. O PNPAS tem os conteúdos certos, baseia-se na evidência científica, mas precisamos do passo em frente.

Pensa que as metas para 2027, como a redução de 10% do teor em sal e de 20% do teor em açúcar nos alimentos, são alcançáveis?

O programa é muito ambicioso. Se me pergunta se é assertivo e se reúne todas as condições para ser exequível, sim. Como é que isso se faz? Com um diálogo muito grande entre a indústria e as instituições, especialmente o PNPAS, e que envolva, por exemplo, o Instituto Ricardo Jorge, que tem feito um trabalho brilhante ao nível do perfil nutricional dos alimentos processados, para que estes sejam melhorados. E não há engano: o perfil nutricional dos alimentos pode ser melhorado. Haja vontade da indústria e das empresas alimentares. Quando se diz que há necessidade de redução das substâncias menos interessantes ao nível da saúde, estamos a falar dos açúcares, do sal, das gorduras trans... É preciso que a indústria esteja alinhada. Contudo, também é preciso aumentar a literacia de saúde na população. Porque estes alimentos podem ser melhorados, mas nunca vão deixar de existir. Quero que as nossas crianças estejam informadas de que estes alimentos existem. Não estou a dizer que não possam comer piza ou bolo, ou beber um refrigerante de vez em quando. O que não podem é transformar isso na sua alimentação. Espero que o PNPAS não tenha só uma listagem de metas, mas que faça tudo para que sejam cumpridas. É aí que temos de nos aliar e ajudar também, para que o programa seja exequível.

Fala-se de desperdício alimentar nas escolas...

Nalgumas escolas da região de Lisboa e Vale do Tejo, um estudo detetou 45% de desperdício alimentar nas refeições. Há falta de formação. Se calhar servem uma criança de seis anos da mesma forma que uma de 15 ou 16 anos. Não é a mesma coisa. Há desperdício porque a criança não consegue comer. Qualquer cozinha escolar tem de seguir as capitações ajustadas para as idades. E há falta de tempo. Em vez de 30 ou 40 minutos, dão só 15 para a criança comer. Há uma série de questões. As dinâmicas aceleradas das escolas, a falta de conhecimento... Percebemos, por exemplo, que, nas escolas com nutricionista, tudo foi mais organizado, houve muito menos desperdício alimentar, as crianças e as famílias ficaram felizes, e tudo se fez com ordem.

Que lhe parecem as medidas fiscais para promover o consumo de alimentos mais saudáveis?

Há um descontentamento generalizado na indústria, que tenta combater as medidas fiscais. Mas é mais do que evidente que o aumento de taxas nos alimentos menos saudáveis, como nos refrigerantes, em 2017, traz benefícios para a saúde. Houve um consumo muito menor de açúcar, o que fez com que a indústria avançasse com melhores perfis nutricionais. A redução do IVA nos alimentos saudáveis é benéfica. Só espero que traga também resultados na compra. Continuamos a ter riscos acrescidos que nos fazem morrer e adoecer. Temos uma população doente. A pandemia de covid-19 agravou muitíssimo as doenças, e estas agravaram a pandemia. Foi um ciclo. Todas as medidas fiscais dão um passo, que tem de ser levado às pessoas certas. Que cada medida fiscal acompanhe um comportamento mais saudável.

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