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Emagrecer sem riscos: entrevistámos Isabel do Carmo

03 maio 2012 Arquivado

03 maio 2012 Arquivado

Para perder peso, não há milagres: é preciso gastar mais calorias do que as ingeridas. Produtos ou dietas que prometam resultados fáceis e sem esforço não são credíveis.

Mudança de hábitos alimentares dos portugueses, obesidade, conselhos para uma alimentação ou dieta de emagrecimento saudável e impacto da crise nas escolhas que levamos à mesa foram os temas principais da conversa com a médica e presidente do conselho científico da Plataforma contra a Obesidade.

Isabel do Carmo é presidente do conselho científico da Plataforma contra a Obesidade.

Tradicionalmente, os portugueses seguiam a dieta mediterrânica. Até que ponto nos estamos a afastar desse regime equilibrado?
A dieta mediterrânica deve ter sido prevalente em certas regiões, mas penso que não podemos dizer que fosse uniforme e homogénea. Nas zonas mais pobres, a alimentação era muito mais monótona, no limiar da fome. As pessoas comiam o que podiam para sobreviver. Portanto, pensar na dieta mediterrânica como algo de uniforme em relação ao passado da alimentação portuguesa não me parece cientificamente correto. No entanto, houve um padrão, possivelmente mais no Litoral e em determinadas classes sociais, digamos, médias. Nesse caso, sim, havia o hábito de pôr no mesmo prato vegetais, alimentos ricos em hidratos de carbono complexos, carne, peixe e azeite.

E estamos a afastar-nos muito desse padrão?
Possivelmente, não nos afastamos muito à mesa. Mas, fora da mesa, as pessoas, sobretudo as mais jovens, comem alimentos hipercalóricos, muito densos em calorias.

Que consequências tem esta mudança na saúde?
É uma mudança no sentido de uma grande ingestão de calorias à base de gorduras, sal e açúcar. São alimentos apetitosos, mas que promovem a obesidade, a diabetes e as doenças cardiovasculares.

Já existem números que reflitam essa transformação? Entre os portugueses, a obesidade já é um problema de saúde pública?
Em relação à obesidade, temos de preocupar-nos muito porque um terço das crianças entre os 2 e os 18 anos tem peso a mais: uma parte pré-obesidade, outra obesidade já declarada. Quando um terço das crianças e jovens tem peso de risco, é, com certeza, muito preocupante. Metade dos adultos também apresenta peso excessivo.

Os pais devem prevenir um peso de risco nas crianças: “É muito importante que os mais pequeninos não conheçam os sabores das comidas densas ou que os conheçam o mais tarde possível.”

Que conselhos pode transmitir aos pais?
A melhor atitude é a prevenção, para que a criança não venha a ter um peso de risco. É muito importante que os mais pequeninos não conheçam os sabores das comidas densas ou que os conheçam o mais tarde possível. O ser humano gosta muito de doces e os mais pequeninos, se têm conhecimento deles, não querem outra coisa. Não tenhamos ilusões. Portanto, isto tem de ser um bocadinho drástico. Ao longo da primeira infância, também devem ser dados vegetais e fruta a pouco e pouco, alimentos saudáveis. Os pais devem ainda promover o exercício físico e não permitir que as crianças fiquem sentadas durante horas em frente da televisão.

Podia falar um pouco das linhas de intervenção da Plataforma contra a Obesidade?
A Plataforma contra a Obesidade tem tido muitas ações de divulgação em vários locais do País. No último ano, houve uma tomada de posição escrita, com as nossas linhas de orientação sobre nutrição e exercício físico. E o grupo dedicado à obesidade infantojuvenil lançou recentemente um livro com o título “Gorduchos e Redondinhas”.

Para perder apenas alguns quilos, como devemos construir uma dieta saudável?
A alimentação saudável e equilibrada é isocalórica, ou seja, o indivíduo ingere tantas calorias como as que gasta. Para perder peso, tem de gastar mais calorias do que as consumidas. Diminui a alimentação ou aumenta o exercício. Portanto, existem dois conceitos diferentes. No último caso, há que retirar todos os alimentos hipercalóricos, incompatíveis com uma dieta para perder peso. Face a uma situação de obesidade, as estratégias são as mesmas, mas mais intensas e prolongadas.

As dietas com promessas de emagrecimento fácil e sem esforço não são uma opção.
Não são possíveis nem fáceis. Muitas vezes, as pessoas fazem dietas demasiado restritivas, com uma grande redução calórica. Tem de haver redução, mas não pode ser excessiva.

Estamos a falar de quantas quilocalorias?
Uma dieta de emagrecimento equilibrada contempla 1200 a 1500 quilocalorias. Uma dieta muito restritiva está nas 700 a 800. Não quer dizer que, de vez em quando, não façamos destas (por exemplo, no caso de pessoas que têm de preparar-se para uma operação).

E os produtos para emagrecer?
A maioria não faz nada ou contém substâncias em relação às quais há dúvidas, como diuréticos, laxantes e estimulantes. Os diuréticos fazem perder água e os laxantes fezes. Os estimulantes são perigosos, porque podem aumentar a frequência cardíaca.

Que impacto podem ter na saúde?
Felizmente, a maioria das pessoas segue as dietas demasiado restritivas durante pouco tempo e acaba por abandoná-las, a não ser que exista uma patologia de comportamento alimentar, como a anorexia. Mas são situações pouco frequentes. Os produtos mais perigosos são os estimulantes. Estão reportados casos a nível internacional de acidentes cardíacos, mesmo mortais. Também podem ocorrer carências em zinco, ferro e vitamina B12. Não estão estudadas, mas podem acontecer.

Existem estudos científicos sobre os produtos para emagecer?
Há alguns nos Estados Unidos. A lei é igual à nossa, ou seja, estes produtos não são controlados pela Food and Drug Administration (FDA), mas apenas notificados no Ministério da Agricultura. Não têm de apresentar dossiês a provar a sua eficácia e segurança. Não são considerados medicamentos, mas atuam como tal. Alguns, de facto, são extratos de plantas, outros contêm substâncias de síntese. A FDA só pode investigar se lhe forem denunciados casos de toxicidade. Existe bibliografia americana sobre produtos tóxicos, a maioria estimulantes. Outra questão também estudada pelos americanos é aquilo que eles consideram “substâncias ocultas”, ou seja, não declaradas nos rótulos. Descobriram-se produtos que continham redutores do apetite e antidepressivos.

Que tipo de alimentos devemos privilegiar na nossa dieta para mantermos a saúde?
Temos de comer cinco porções de fruta ao dia. Devemos também incluir laticínios e derivados, como queijo e iogurte. Mas há que ter atenção ao queijo, que pode ser bastante gordo. É ainda preciso contemplar pequenas porções de peixe e carne do tamanho da palma da mão e não devemos esquecer o arroz, a batata, a massa, o feijão e o grão: os chamados amidos.

Existe, por vezes, a ideia de que o leite de vaca prejudica a saúde. Há evidências científicas?
Não. Só as pessoas com intolerância à lactose têm de evitar o leite ou beber uma versão sem aquela substância. Depois, há a questão do consumo precoce do leite de vaca pelas crianças. Nesse caso, existe evidência científica de que, quanto mais cedo for introduzido o leite de vaca, maior a prevalência de diabetes e patologias em geral.

Porque o leite materno protege contra as doenças...
Protege em relação a tudo. Mas, ao longo da vida, o leite faz falta: é um alimento muito completo. Precisamos de cálcio porque somos um animal com uma esperança de vida muito grande. Passámos para o dobro num século, o que não acontece com os outros animais, que não tomam antibióticos nem usufruem de condições sanitárias especiais. Também não fazemos o mesmo exercício que os outros animais. Mas os leites de crescimento são uma fantasia para vender mais. O leite normal é suficiente e pode ser magro, que tem igual quantidade de proteínas e cálcio do que o meio-gordo ou o gordo. Também não é necessário o leite enriquecido com cálcio. Só é preciso que as pessoas bebam a quantidade adequada de leite: 2 a 3 copos de 25 centilitros ao dia. Um copo pode ser substituído por 2 iogurtes. Mas o leite é mais barato.

Comer bem é mais caro?
É possível comer bem e ser caro. Mas também é possível fazer escolhas baratas e interessantes do ponto de vista nutricional. Por exemplo, podemos comer feijão e grão, que também está pré-preparado: basta abrir uma lata. Podemos comer atum, também em lata, ou ovos, baratos e nutritivos. E podemos juntar o arroz e a massa.

E a sopa? Qual é o seu valor?
O valor da sopa é enorme, porque tem vegetais. Também não tem problemas de higiene, porque a fervura mata os microrganismos. Como conserva a água da cozedura dos vegetais, não se perdem os sais minerais e as vitaminas. É um bom fornecedor de líquidos, mas não dispensa o consumo de um litro e meio de água por dia.

A crise está a mudar os nossos hábitos alimentares?
Neste momento, há um grande risco de carências alimentares, porque as pessoas podem comer o suficiente em termos de calorias e estarem desnutridas. Pode haver carência de ferro, zinco e vitamina B12. Portanto, é preciso estar atento e evitar uma alimentação monótona. Por exemplo, sardinhas, carapaus, peixe congelado e ovos não são alimentos caros. Mas estes fenómenos repercutem-se a longo prazo e são difíceis de avaliar. Na consulta da obesidade, sentimos que há carências e que as pessoas estão desnutridas. Nos países desenvolvidos, os mais obesos são os mais pobres. A falta de informação tem importância, mas é sobretudo uma questão económica e social. Trata-se de um problema de saúde pública. Mas não há neste momento nenhum programa do Ministério de combate à obesidade.