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Victor Gil tem 53 anos e trabalha há 21 no Instituto do Emprego e Formação Profissional. Apostar na qualificação é uma forma de ultrapassar o desemprego, defende, embora não haja “soluções milagrosas”.
 “Encaminhámos cerca de 3000 inscritos no centro para cursos de formação,
em 2009”
Que recomenda a quem ficar desempregado?
Não há soluções milagrosas, mas asseguro que é muito mais fácil
encontrar emprego para pessoas com habilitações elevadas do que para
trabalhadores com menos do 9.º ano. Vale a pena aproveitar o tempo no desemprego
para apostar na formação e melhorar competências. A maioria dos cursos dura um
ano e tem uma forte componente escolar, como as Novas Oportunidades. Mas há
outras formações simples, como o domínio de uma língua estrangeira ou das novas
tecnologias.
O número de desempregados cresceu 26% em Dezembro de
2009 face a 2008. O que espera para 2010? O número de inscritos no
centro tem crescido à semelhança do que acontece no País. Entre Dezembro de 2008
e o mesmo mês de 2009 temos mais 1500 desempregados num universo de 6500.
Representa cerca de 25% do desemprego em Lisboa, já que abrangemos duas
freguesias muito populosas: Santa Maria dos Olivais e Marvila. Muitos
inscritos residem em concelhos limítrofes, como Amadora e Loures, por pensarem
que têm mais oportunidades no centro da cidade. O desemprego de longa duração
(mais de um ano) também tem aumentado.
Quais os sectores mais afectados no
centro? Administrativos, vendas, hotelaria e restauração, por
exemplo, por predominarem nesta zona da cidade. Ao fim de tantos anos de
formação e de uma luta grande no sentido de qualificar desempregados, temos
cerca de 40% dos inscritos com menos do 9.º ano. Os licenciados são uma franja
em crescimento: assumem um valor próximo dos 20 por cento. Mas a grande maioria
dos inscritos são pessoas com experiência de trabalho.
O conselho de ministros aprovou medidas de combate
ao desemprego para 2010. São uma ajuda? Algumas já faziam parte do
conjunto de medidas de 2009. Da experiência do ano passado, os programas
associados a estágios profissionais foram muito importantes. Para uma boa parte
dos jovens até 35 anos, constituem a primeira experiência de trabalho. As
empresas que se candidatam têm um papel activo na selecção e identificação dos
estagiários e são raras as situações de problemas, que levem a desistências ou
abandonos. E a taxa de emprego no final dos estágios é bastante elevada. De
um orçamento de 5 milhões e 700 mil euros, este centro aplicou 75% em estágios
profissionais em 2009. Abrangemos cerca de 1100 pessoas.
 “Cerca de 40% dos inscritos têm menos do 9.º ano”
Esses estágios são uma das medidas de formação dos
centros? Sim. Existem 3 tipologias de programas de apoio ao emprego:
um pacote para favorecer a criação de emprego próprio, dentro do qual existem
apoios à admissão de trabalhadores; um conjunto de programas para estágios
profissionais; e outro de cariz social, que visa a inserção de grupos mais
desfavorecidos em actividades de interesse colectivo. São projectos que decorrem
em instituições particulares de solidariedade social (IPSS).
Em que medida estes programas contribuem para arranjar
emprego? Em 2009, encaminhámos cerca de 3000 dos 6300 desempregados
inscritos para cursos de formação. Regra geral, são pessoas com menos do 9.º
ano, que têm assim a possibilidade de reconhecer competências e habilitações.
Há casos em que o plano pessoal de emprego não funciona por falhas de
comunicação com a segurança social? Sim. Os centros estão ligados à
segurança social por um sistema integrado. Mas este nem sempre existe na relação
entre os centros e algumas caixas de previdência. No caso da Caixa de
Previdência e Abono de Família dos Jornalistas, por exemplo, é o papel que tem
de circular de cá para lá e de lá para cá. Ou seja, quando um jornalista
desempregado se dirige ao centro, nós mandamos o processo para a Caixa de
Jornalistas. Se não nos for dado o retorno de que o subsídio foi deferido, para
nós, é como se essa pessoa não tivesse direito. Muitas vezes, descobrimos pelos
desempregados, meses mais tarde, que recebem o subsídio. Em todo o caso,
convocamos as pessoas que não têm contacto com o centro há mais de 3 meses, para
verificarmos se houve alguma alteração à situação inicial.
Qual a utilidade das visitas quinzenais? Servem só para ir buscar o
papel da visita seguinte? É uma prova de vida. As apresentações
quinzenais têm um efeito prático importante: evitam situações de acumulação do
subsídio de desemprego com trabalho irregular. Pode não ser agradável
apresentar-se de 15 em 15 dias, mas é possível pedir dispensa por um mês, uma
vez por ano, se necessário. Neste período, os inscritos não são chamados para
intervenções técnicas, nem ofertas de emprego.
 “As visitas quinzenais evitam situações de acumulação do subsídio de
desemprego com trabalho irregular”
Que inspecções fazem e como avaliam esse tipo de
abusos? Compete à segurança social fazer as inspecções. Contudo,
quando identificamos situações anormais, como falta a convocatórias, recusa de
emprego, formação ou integração nalgum programa, comunicamos à segurança social.
Essas são as principais razões de perda do subsídio, mas é raro acontecer.
Há interessados nos incentivos à criação do próprio emprego? E é uma
boa alternativa neste momento de crise? Alguns desempregados
procuram de tudo. Outros nem tanto. Nota-se certa acomodação ao subsídio,
sobretudo quando é elevado. Só perto do termo é que mostram interesse em
procurar uma alternativa. O nosso papel é divulgar as medidas existentes. Além
de informarmos quem recorre de forma voluntária ao centro, fazemos sessões
mensais sobre os apoios. A procura de incentivos à criação do próprio
emprego, em valores absolutos, não é grande. Em 2009, apoiámos 100 postos de
trabalho. Comparado com o número de estágios (1000) é um valor diminuto. Mas
alguns projectos não são muito viáveis.
Quais são, no entender do centro, os projectos mais
viáveis? A maioria das propostas que nos chegam são na área dos
serviços, como consultoria de contabilidade, fiscalidade e informática, ou
serviços ligados ao lazer, como ginásios. Mas nesta conjuntura, qualquer
projecto é difícil. Muitos dos que apoiámos têm pedido o alargamento do prazo
para amortizar o investimento.
 “Neste momento, qualquer projecto para criar o próprio emprego é
difícil”
O subsídio é insuficiente para a maioria dos
inscritos? Sim, porque é menos do que recebiam. Mas pior do que isso
são os que não têm sequer subsídio. Cerca de 40% dos desempregados aqui
inscritos vivem nessa situação, a maioria com menos do 9.º ano de escolaridade,
e muitos recusam formação.
Última atualização em novembro de 2010
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