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Muitos médicos receitam antibióticos sem necessidade e algumas farmácias vendem-nos sem prescrição. Estas são as principais conclusões de um estudo da DECO, cujos resultados vêm publicados na edição de Abril da TESTE SAÚDE.
A associação de consumidores pediu a colaboradores saudáveis que consultassem médicos, em 58 consultórios privados e 9 centros de saúde, queixando-se de dores de garganta e um ligeiro incómodo ao engolir, sem outros sintomas. Em 37 casos, os profissionais receitaram antibióticos, que são desnecessários para a situação em causa.
Destes 37 profissionais, seis prescreveram os antibióticos numa receita à parte e disseram que esta só deveria ser aviada se o problema se agravasse, ou seja, se tivesse febre e pontos brancos (pus) na garganta. Esta atitude, segundo a TESTE SAÚDE, é mais cautelosa, mas continua a facilitar o acesso àqueles fármacos.
A maioria dos médicos visitados pela DECO prescreveu os antibióticos espontaneamente, isto é, sem que o suposto doente tivesse manifestado o desejo de tomá-los. Na Clínica d'Avenida (Faro), Jardim da Piedade (Almada), Nossa Senhora da Saúde e Notre Dame (Porto), fizeram-no por sugestão paciente.
A dor de garganta simulada também serviu de mote para a visita a 90 farmácias. Desta vez, os utentes queixaram-se da dor e pediram um antibiótico, sem apresentar receita médica. Oito farmácias venderam o medicamento de prescrição médica obrigatória sem problemas.
O consumo abusivo de antibióticos, em situações para que são desnecessários, aumenta as resistências das bactérias e dificulta o combate às infecções. Neste processo, os microrganismos tornam-se, a pouco e pouco, insensíveis à acção dos ditos medicamentos.
O desenvolvimento de resistências é um processo natural, mas o uso massivo e pouco racional daqueles fármacos acelera o processo. Se a situação se mantiver, podemos ficar sem armas contra certas doenças. "A Organização Mundial de Saúde refere que certas patologias, como a tuberculose, podem tornar-se incuráveis em poucos anos", alerta a TESTE SAÚDE.
O uso desregrado de antibióticos em Portugal é um verdadeiro problema de saúde pública. A responsabilidade reparte-se entre profissionais e consumidores. Por isso, a DECO exige que o Ministério da Saúde tome medidas para racionalizar o consumo.
- Primeiro, segundo a associação de consumidores, importa conhecer a fundo a realidade nacional, através de mais estudos aos hábitos de prescrição e consumo.
- Cabe ao Ministério da Saúde fazer um forte investimento em campanhas para sensibilizar os consumidores sobre o perigo da automedicação com antibióticos e o seu uso desregrado. Os utentes devem, ainda, ser dissuadidos de pedir estes medicamentos aos profissionais.
- É também fundamental, por exemplo, criar "normas de boas práticas" claras e precisas, ao nível da prescrição, com base em informações científicas (quando, quanto e o que receitar, etc.). Convém, ainda, continuar a promover campanhas dirigidas aos médicos, alertando-os para a necessidade de limitar o uso de antibióticos às doenças em que são imprescindíveis. A pressão dos pacientes para obter um antibiótico não pode servir como critério para receitas desnecessárias.
- Ao Ministério cabe também desenvolver um sistema de avaliação da qualidade da prática clínica. Entre outros aspectos, este permitirá saber onde se encontram os problemas de prescrição de antibióticos e combatê-los.
- Os farmacêuticos deverão respeitar as regras e só vender estes medicamentos quando o médico os receitar.
- Dado que a saúde pública está em risco, a DECO comunicou os resultados do estudo à Direcção-Geral da Saúde, Inspecção-Geral de Saúde, Secretaria de Estado da Defesa do Consumidor, Entidade Reguladora da Saúde e Infarmed.
| Teste Saúde n.º 66 - Abril/Maio de 2007 - páginas 9 a 13 |
22.03.2007
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