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O suicídio é uma decisão permanente para problemas transitórios. O apoio da família e amigos e a ajuda profissional são a chave para voltar a ver o mundo com cores vivas.
Entrevistámos José Carlos Santos, presidente da Associação Portuguesa de Suicidologia e professor na Escola Superior de Enfermagem Bissaya Barreto, em Coimbra. Rede de apoios do Estado para doentes em risco, papel da família e amigos na prevenção, conselhos para os pais perceberem os sinais e responsabilidade da comunicação social na difusão de notícias sobre suicídio foram algumas das temáticas percorridas numa conversa recheada de ideias fortes.

Prevenção, consultas e ajuda
Que tipo de ações promove o Estado ao nível da prevenção?
A prevenção é uma tarefa multifacetada e com diversos intervenientes. Não é exclusiva da saúde, mas esta tem um papel crucial. Portugal assinou o pacto Europeu de Saúde Mental em 2005 e considera a prevenção da depressão e do suicídio como uma das prioridades do Plano Nacional de Saúde Mental 2007-2016. Mas, quando falamos de medidas concretas, há dificuldade em identificá-las. Existem algumas intervenções em escolas do 3.º ciclo e secundário e consultas especializadas, nomeadamente nos hospitais de Santa Maria, Universidade de Coimbra, São Marcos (Braga), Beja, Portalegre e Guimarães. Se for promovido o diagnóstico precoce de doença mental e facilitada a acessibilidade aos cuidados de saúde, são aumentadas as medidas de suporte social e é possível prevenir comportamentos suicidários.
Qual o modelo de referenciação, no Serviço Nacional de Saúde, para consultas especializadas?
Antes das consultas especializadas, os técnicos dos centros de saúde, sobretudo médicos de família, mas também enfermeiros de família, podem ser importantes na identificação de problemas e encaminhamento para uma consulta de psiquiatria. Cabe ao médico de família tomar a decisão de acordo com a rede de referenciação nacional. No caso de as pessoas apresentarem vários fatores de risco para o suicídio ou já terem evidenciado este tipo de comportamentos, podem ser encaminhadas para consultas de prevenção. No geral, não têm lista de espera ou permitem um atendimento rápido.
Onde pode dirigir-se uma pessoa com depressão, em risco de suicídio?
Pode, desde logo, ligar para uma linha de apoio especializada, como a SOS Voz Amiga (213544545), a Escutar - Voz de Apoio (225506070), o Telefone da Amizade (228323535) ou a SOS Estudante (808200204), mantidas por voluntários que, sob o duplo anonimato do escutante e apelante, prestam um serviço a pessoas em crise e no combate ao isolamento. Disponíveis sobretudo à noite, estas linhas ajudam a refletir sobre soluções que, por vezes, sozinho, não é possível identificar.
Se a pessoa tiver um diagnóstico de depressão, com a identificação de sinais de risco, pode contactar o seu técnico de referência, para perceber a gravidade da situação e as medidas a tomar. Em situações mais graves, pode dirigir-se a um serviço de urgência (de preferência, com psiquiatria).
Apoio da família e amigos
Qual o papel da família e amigos na prevenção e no apoio a quem evidencia tendências suicidas?
A rede de suporte familiar e social é muito importante. Proximidade é a palavra-chave. Estar atento e mostrar disponibilidade, empatia e solidariedade pode ser determinante. A família e os amigos ajudam a encontrar soluções para problemas que a pessoa encara como intermináveis, inevitáveis e intoleráveis. Podem ainda mostrar que o suicídio é uma solução definitiva para problemas quase sempre transitórios. No caso de ideação suicida marcada, com plano para cometer o ato, devem encorajar um pedido de ajuda especializada e acompanhar na tomada de decisão e adesão terapêutica. Independentemente de ligeiras melhoras numa fase inicial, não quer dizer que a situação esteja ultrapassada, devendo, por isso, ser mantida alguma proximidade e atenção. Os interessados podem recorrer ao sítio na Internet da Sociedade Portuguesa de Suicidologia para encontrarem respostas e saberem como atuar.
Crianças, jovens e estudantes universitários
Têm surgido alguns casos de suicídios de crianças entre nós. O que pode levar uma criança a sentir que a morte é a única saída?
Falando no geral e de nenhum caso em concreto, podem surgir questões de natureza individual e quase sempre uma doença do foro mental, sobretudo depressão. A depressão leva à ideia de que o problema não tem solução além da morte. Como é que isto se instala? Pode ser por doença mental, dificuldades escolares, ausência do suporte de amigos ou confidentes, ruturas afetivas muito dramatizadas, problemas a nível familiar. O Prof. Daniel Sampaio foi a pessoa que mais estudou estas questões em Portugal. Trata-se de um tipo de diálogo que acontece quando os pais triangulam com o filho. A discussão centra-se no miúdo, mas é entre pai e mãe: “Por causa da tua mãe ou por causa do teu pai”, “se não fosses tu, já tinha abandonado o casamento”. O miúdo recebe uma carga excessiva e assume uma responsabilidade para a qual não está preparado. Nestes casos, se chega a suicidar-se, é comum deixar uma carta do género “espero que sejam felizes na minha ausência”. Esta tipologia está bem estudada em Portugal. É a ideia de salvar pela ausência. A criança parte para que os adultos funcionem bem.
Depois, há crianças com 12 ou 13 anos que ainda não têm a noção de irreversibilidade. Por exemplo, uma jovem que andava em consulta disse-me: “Eu já pensei muitas vezes em suicidar-me, mas nunca o fiz, porque sei que, no dia seguinte, vou arrepender-me”. Esta noção de que não há dia seguinte ainda não está adquirida. Muitas vezes, não querem morrer, mas aliviar o sofrimento. Existem também os indivíduos que procuram transformar o sofrimento psicológico em sofrimento físico. É o que se passa, por exemplo, com os que se cortam. Dizem, muitas vezes, “eu não consigo viver com o sofrimento psicológico, prefiro o físico e, quando vejo sangue, sinto-me aliviado”. O discurso pode causar estranheza, mas é, de facto, o que eles sentem.
Os adolescentes dão algum sinal?
Há comportamentos mais ou menos comuns. Por exemplo, se um adolescente diz “hoje, à noite, quero estar sozinho, porque quero pensar na minha vida”, à partida, isso é normal. Mas, se disser sistematicamente aos pais “hoje não quero jantar convosco, prefiro ficar no quarto”, recusar os convites dos amigos para sair ou as atividades de grupo, deixar de ter bom rendimento escolar ou oferecer objetos estimados, há que ficar alerta, pois são sinais de risco.
Existe também a questão do namorado, confidente ou grupo de pares. Mesmo que os pais não se identifiquem com o grupo de pares, é importante não obrigar o filho a escolher entre este e a família, porque a opção vai recair sobre o primeiro. O modelo de comportamento deixa, então, de ser a família. Ainda que, por vezes, os pais tenham de gerir algumas tensões do ponto de vista cultural, ambiental e social, provocar ruturas é o pior, porque, mesmo que os jovens integrem, por exemplo, um grupo gótico ou estejam associados a bandas de música que defendam ideias de morte, sempre que são criadas ruturas, deixam de ter um continente para pôr dúvidas. Se colocarem uma questão do tipo “os meus amigos dizem isto, o que achas?” e o pai ou a mãe responderem “isso é uma estupidez, não quero falar mais no assunto”, na próxima vez, já não lhes vão contar e a família perde a condição de referencial. Os miúdos precisam de testar limites, mas trata-se de um vaivém em termos de autonomia. Precisam de saber que, à noite, têm o colo do pai ou da mãe. Se deixarem de poder fazer este vaivém, os comportamentos de risco aumentam, quando antes eram doseados por uma relação afetiva com a família ou alguém que, sendo adulto, tinha experiência de vida e podia dar conselhos.
Na escola, há jovens que se afirmam por serem mal comportados...
Sim, há grupos em que os miúdos são mais considerados quanto mais mal-educados forem. São ousados, faltam às aulas, troçam dos professores, fazem disparates e, depois, chegam ao intervalo e gabam-se. É uma forma de notoriedade. Precisam de alguém que lhes diga “entendi o que fizeste, mas vamos pensar como poderia ser a tua vida se fizesses de outra forma, como é que o teu grupo te reconheceria se, em vez de teres zero a matemática, tivesses ‘satisfaz’ no próximo teste”.
Embora as generalizações sejam perigosas, nesta fase, os pais transferem a função da família para as escolas. Deixam os miúdos de manhã e vão buscá-los ao fim da tarde, chegam a casa cansados e não têm disponibilidade para ouvi-los. Depois, exigem que a escola desempenhe a função que anteriormente era da família.
Coimbra tem um problema de suicídio entre estudantes universitários. Como explica o fenómeno?
Os estudantes saem do secundário e, quando chegam a Coimbra, sofrem uma passagem demasiado brusca. Não conseguem gerir o tempo nem o dinheiro, no fundo, a sua autonomia. Alguns são muito bons estudantes e têm dificuldade em lidar com o fracasso. Coimbra é uma cidade pequena, o que, à partida, seria um fator protetor. Mas pesa o afastamento dos anos anteriores de vida. Têm de adaptar-se a novos amigos e formas de aculturação e integração. Há uma série de transições e mudanças, algumas demasiado bruscas para a preparação dos adolescentes.
Em Lisboa, também há este tipo de fenómenos. Se atentarmos, por exemplo, no núcleo de estudos epidemiológicos do Hospital de Santa Maria, fundado pelo Prof. Daniel Sampaio, verificamos casos de jovens com problemas. Mas, em Lisboa, a concentração numa única instituição é menor. Em Coimbra, existe uma perceção mais realista do que em Lisboa, que tem muitos pontos de dispersão. Os jovens são encaminhados para vários hospitais e, às vezes, é difícil obter uma ideia global.
Outro aspeto importante é o facto de Lisboa ter muitos estudantes que não saem de casa dos pais, pelo que não sofrem um choque tão grande. Coimbra é uma cidade menor, com cerca de 100 mil habitantes e mais de 20 mil estudantes no ensino superior. Durante a Queima das Fitas, o problema agrava-se, porque são associados todos os problemas da adolescência ao consumo de álcool, que é um potenciador.
Quando o Kurt Cobain se suicidou, em 1994, houve casos de imitação. O que leva um adolescente a seguir o seu ídolo?
Os fenómenos de imitação são antigos. Um caso bem famoso é aquele que ficou conhecido como efeito Werther. Este era uma personagem de um romance de Goethe, que mantinha um amor platónico por uma senhora com casamento marcado. Entretanto, ela seguiu a sua vida e ele suicidou-se. O livro acabou por ser proibido em algumas regiões da Alemanha no século XIX, porque muitas pessoas com um desgosto amoroso viram a solução no suicídio.
Mais recentemente, algo de semelhante aconteceu devido ao Kurt Cobain dos Nirvana, sobretudo entre os adolescentes. Deixou uma carta, erradamente tornada pública, que transmitia a ideia de que mais valia acabar com a vida do que ter um sofrimento permanente. Nos adolescentes, estas afirmações, que preconizam uma ideia romântica, têm um grande impacto. Trata-se da famosa ideia do Che Guevara segundo a qual “mais vale morrer de pé do que viver toda a vida de joelhos”. Muitos adolescentes suicidaram-se e deixaram uma carta parecida com a do Kurt Cobain. Por isso, os fenómenos de imitação são agora conhecidos como efeito Werther-Cobain.
Devemos colocar os suicídios de famosos na ótica de quem está doente. O que é que achamos das celebridades? Que não têm problemas e são felicíssimas. Quem está doente pensa: “Se aquele, que era famoso, não teve solução e foi obrigado a suicidar-se, o que há de ser de mim, que sou pobre e não tenho amigos nem futuro?” A solução passa a ser o suicídio.
Por isso, a Organização Mundial de Saúde defende que a comunicação social não deve associar sucesso nem coragem ao suicídio. Sucesso e coragem temos nós todos, que estamos vivos. Quem se suicida é sempre alguém que experimentou o insucesso em várias órbitas.
Saber ler os sinais
Quando a pessoa ameaça que vai suicidar-se, devemos acreditar? Há a ideia de que só quer chamar a atenção.
Pois, mas isso é um mito. A esmagadora maioria das pessoas avisa. Pode ser de uma forma direta ou não. Por exemplo, há os que dizem “qualquer dia, vou-me embora”. Dizem isto e esperam que alguém entenda.
A melhor postura é dizer “O que posso fazer para ajudar-te?” ou “queres desabafar?”. Se responder “tenho a certeza desta opção, sei onde o meu pai guarda a arma, sei quando os meus pais vão para o emprego”, existe um plano claro. Implica que, não só escutemos a pessoa, como a acompanhemos na ida à consulta ou urgência e na adesão terapêutica.
O suicídio é sempre um grito de pedido de ajuda, uma noção que, às vezes, não temos. Pensamos que a pessoa está a tentar chantagear ou manipular. Tudo isso pode ser verdade, mas trata-se sobretudo de alguém que está a pedir ajuda para conseguir mudanças.
Comunicação social
Ao dar destaque a estas temáticas, a comunicação social pode gerar um impacto negativo junto de indivíduos em risco? Qual o papel que pode ou deve assumir para reforçar a prevenção?
A comunicação social tem um papel importante na forma como noticia os casos de suicídio. A ausência de rigor e a procura do sensacionalismo podem levar a uma repetição de comportamentos e, por essa via, a um aumento de suicídios. Por outro lado, uma informação rigorosa, criteriosa e pedagógica pode ajudar na prevenção, de tal forma que a Organização Mundial de Saúde elaborou um manual com indicações para os media. Posso destacar as seguintes recomendações:
- dar conta do fenómeno promovendo a saúde pública;
- rejeitar uma linguagem que motive ou apresente o suicídio como solução;
- evitar o destaque a notícias sobre o suicídio;
- não descrever os métodos de forma pormenorizada nem o local exato;
- ter cuidado na divulgação de fotos ou vídeos acerca do suicida;
- mostrar particular cuidado no caso de celebridades;
- dar voz às pessoas em luto;
- divulgar informação sobre locais de ajuda;
- ter em atenção que também os profissionais dos media podem ser afetados pelo problema.
Resumidamente, a notícia deve restringir-se ao essencial, sem relatos de pormenores sobre o método ou ação desencadeada para o suicídio. Não deve idolatrar nem glorificar a pessoa em causa. Deve, isso sim, dar conta dos problemas que os sobreviventes em luto enfrentam: familiares, amigos, colegas de trabalho ou outros. O ideal é que alerte para soluções, não apresentando o suicídio como uma saída.
Intervenção da Sociedade Portuguesa de Suicidologia
Quais os vetores de intervenção da Sociedade Portuguesa de Suicidologia, a que preside?
Ao nível dos estatutos, a SPS tem como fins a contribuição para o estudo e investigação, prestação de cuidados, formação, cooperação e organização de ações que visem a área da suicidologia. Tendo como alvo a prevenção de comportamentos da esfera suicidária, procura formar e intervir no sentido de definir políticas e melhores cuidados, alicerçados num conhecimento científico e, sempre que possível, numa prática baseada na evidência. Dá, por isso, especial atenção à investigação.
Como exemplo, destaco o mais recente protocolo celebrado com a Direção-Geral dos Serviços Prisionais, para a assessoria na implementação de medidas preventivas de suicídio nas prisões, através da formação e investigação, e a criação de grupos de discussão e aprofundamento para a prevenção junto dos LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgéneros) e a adesão terapêutica em doentes esquizofrénicos.
Em março de 2012, terá lugar o simpósio anual, em Viseu, subordinado ao tema “Comunidade e Suicídio”. Em setembro, assinala-se o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, em Odemira. Para 2013, temos o projeto de um novo livro sobre comportamentos suicidários em Portugal. Contamos ainda com o sítio na Internet, onde damos informações sobre como lidar com este tipo de comportamentos.
Última atualização em janeiro de 2012
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Sumário
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