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Os tratamentos têm evoluído bastante, mas ainda não há cura, nem tão-pouco vacina. A prevenção continua a ser a única forma de fintar a doença.
O vírus da imunodeficiência humana (VIH) surgiu provavelmente na África Central, durante a primeira metade do século XX. Pensa-se que os chimpanzés o tenham transmitido ao ser humano. Mas só em finais dos anos 70 a doença adquiriu as proporções de epidemia global e, em 1981, foi reconhecida oficialmente.
Segundo as Nações Unidas, mais de 40 milhões de pessoas em todo o Mundo estão infectadas. A maioria das mortes e novos casos ocorre em países em vias de desenvolvimento. Uma boa parte corresponde a crianças até aos 15 anos. Todos os dias, mais de 1000 morrem e 1500 contraem o vírus.
Paradoxalmente, os tratamentos para a sida têm conhecido uma evolução significativa, permitindo maior sobrevivência e qualidade de vida. Tal panorama pode dar a sensação, sobretudo os países ocidentais, de que a doença está controlada e contribuir para um relaxamento face às medidas preventivas.
Em Portugal, verifica-se um aumento proporcional da transmissão entre os heterossexuais. De resto, a sida deixou de ser encarada enquanto problema exclusivo de certos grupos para passar a ser vista como uma doença a que qualquer indivíduo está sujeito. Mas ainda há um preconceito na sociedade, que é preciso combater.
Vírus oportunista
Os vírus têm uma estrutura muito simples, sendo constituídos por material genético e uma cápsula que o envolve. Como não podem usar a respectiva informação genética para se reproduzirem, precisam de uma célula hospedeira.
Alguns vírus contêm ácido desoxirribonucleico (ADN) e outros, ácido ribonucleico (ARN). Estes são designados por retrovírus. Para se reproduzirem, têm de transformar ARN em ADN através de uma enzima específica. Quando o processo de conversão termina, o ADN viral passa a fazer parte do ADN da célula hospedeira e multiplica-se, dando origem a milhares de vírus. O VIH pertence à família dos retrovírus. Por isso, os tratamentos são designados por anti-retrovirais.
O VIH ataca as células do sistema imunitário que reconhecem os vírus, os fungos, as bactérias e os parasitas e têm a função de activar outros sistemas de defesa do organismo. Quando o sistema imunitário fica enfraquecido, não consegue fazer face a infecções oportunistas ou tumores, que podem conduzir à morte do doente.
Fluidos transmissores
Ter consciência das formas segundo as quais o vírus se propaga é a chave para a prevenção. O VIH é transmitido através dos fluidos corporais, como o sangue (incluindo o menstrual), o esperma, os mucos vaginais e o leite materno.
Mas, para haver infecção, tem de passar para o organismo. Tal pode ocorrer através das relações sexuais: por exemplo, se houver contacto entre o pénis e a vagina ou o recto sem o uso de preservativo. Embora com menor grau de probabilidade, isso também pode acontecer por meio de qualquer prática que envolva o contacto entre os fluidos e uma parte do corpo que esteja ferida (inclusive o sexo oral).
A partilha de seringas entre toxicodependentes (ou as picadas acidentais) pode também ser um veículo de transmissão. Segundo o Centro de Vigilância Epidemiológica das Doenças Transmissíveis, este é o grupo com mais casos no nosso país (44,4 por cento). Mesmo assim, a maioria das novas infecções ocorre entre os heterossexuais.
As cirurgias, tatuagens ou pírcingues realizados sem equipamento esterilizado ou descartável são também factores de risco. Com menos probabilidade, o mesmo se aplica à partilha de escovas de dentes, lâminas de barbear e/ou material cortante com alguém infectado.
A transfusão de sangue, produtos derivados ou, ainda, o transplante de órgãos e tecidos infectados são outras formas de contrair a doença. Mas, actualmente, é pouco provável que tal aconteça por esta via, dado que existe um maior controlo nos processos de recolha e tratamento.
O vírus pode igualmente passar de mãe para filho, quer no útero, quer durante o parto ou a amamentação.
Contra o preconceito
A sida não se transmite através de beijos, abraços, apertos de mão, tosse ou espirros. A partilha de chuveiros, casas de banho ou talheres com alguém infectado também não é um factor de risco.
As massagens e a masturbação mútua, desde que não haja contacto dos fluidos com uma ferida, são seguras.
Do mesmo modo, as picadas de insectos e o contacto com fezes, saliva, urina ou suor, a menos que contenham sangue, não transmitem a doença.
Assim sendo, ponha um ponto final ao preconceito. Não afaste um doente de sida, sobretudo tratando-se de uma criança. Por estarem fragilizados, precisam ainda de mais afecto e compreensão.
Etapas da doença
O indivíduo com VIH passa por diversas fases. Uma a quatro semanas após a transmissão, sofre uma infecção aguda. No geral, não apresenta sintomas ou tem-nos de forma pouco específica. Quando existem, prolongam-se por alguns dias e correspondem a febre, mal-estar, vermelhidão, dores nas articulações e/ou nódulos linfáticos inchados. Por vezes, surge uma meningite não bacteriana. Dado que estes distúrbios não são específicos, frequentemente, a fase aguda é confundida com outras infecções virais, como a mononucleose.
Em seguida, a maioria dos doentes passa por um período de meses ou anos em que o sistema imunitário se vai degradando, sem sintomas. Trata-se da fase assintomática, que pode durar mais ou menos tempo consoante a capacidade de replicação do vírus e a resposta do sistema imunitário. Em certas pessoas, vai até 10 anos ou mais.
Por fim, surge um estádio em que ocorrem sintomas: a fase sintomática, também designada por sida (síndrome da imunodeficiência adquirida). Na maioria das vezes, surgem problemas na boca e língua, diarreia prolongada, fadiga, seborreia, suor nocturno, febre e perda de peso. O enfraquecimento do sistema imunitário permite ainda o desenvolvimento de infecções oportunistas, que também têm de ser tratadas. É o caso da candidíase, herpes, pneumonia, toxoplasmose e tuberculose. Em situações mais graves, podem aparecer tumores, problemas neurológicos e demência. No limite, são todos estes distúrbios que conduzem à morte do doente.
Detectar o mais cedo possível
Os portadores de VIH podem viver muitos anos sem sintomas, desconhecendo o seu estado e espalhando a infecção de forma inconsciente. O diagnóstico precoce é vital. Não hesite em submeter-se a um teste se:
- teve sexo desprotegido;
- sofreu uma doença sexualmente transmissível (a probabilidade de contrair o VIH aumenta 18 vezes);
- foi vítima de violação;
- pensa engravidar ou engravidou sem planear;
- desmaiou ou não se lembra do que aconteceu após ter ingerido bebidas alcoólicas ou consumido drogas;
- partilhou agulhas ou outro equipamento para injectar drogas, fez uma tatuagem ou colocou um pírcingue sem garantias de higiene;
- recebeu uma transfusão de sangue em condições sanitárias deficientes.
- Agir rapidamente pode melhorar muito a saúde a longo prazo. Nos centros de aconselhamento e detecção precoce, os testes são anónimos e gratuitos. Mesmo que o resultado seja negativo, convém repetir o teste três meses depois, para confirmar.
Controlar o vírus
O tratamento visa retardar ou impedir a reprodução do VIH, de modo a preservar ao máximo as defesas do organismo. A investigação nesta área tem tido bastantes progressos, com o desenvolvimento de medicamentos anti-retrovirais e o uso combinado de diversos deles. Também tem sido estudada uma vacina, mas ainda sem sucesso. Recentemente, uma chegou à última fase dos testes. Acabou, no entanto, por falhar.
Porém, a eficácia do tratamento depende igualmente da adesão do doente. Por exemplo, o uso de drogas e álcool, uma alimentação deficiente e um estado psicológico depressivo podem comprometer os resultados. Pelo contrário, a informação sobre as características, benefícios e efeitos adversos da terapia é fundamental.
O tratamento pode ser complexo, exigindo a toma de medicamentos a diversas horas. Mas está provado que a adesão é menor quando o doente tem de tomar medicamentos mais de duas vezes por dia. Por isso, nos últimos anos, têm surgido fármacos que combinam duas ou mais substâncias.
Os anti-retrovirais produzem efeitos adversos consideráveis. Entre estes, contam-se náuseas e vómitos, dores de cabeça, pigmentação da pele, escaras, queda de cabelo, diarreia, dores musculares, anemia, hepatite e insuficiência renal. Embora não tragam a cura, estes medicamentos são a única forma de combater a doença.
Mais vale prevenir
As vacinas estão em desenvolvimento, mas ainda não existe nenhuma substância que cure a doença. A melhor forma de não ser infectado acaba por ser a prevenção. Há cada vez mais informação a este nível. A redução dos novos casos depende de uma mudança de mentalidades. O uso de preservativo nas relações sexuais, a rejeição pelos toxicodependentes de seringas usadas e cuidados acrescidos de quem lida com doentes de sida não podem ser descurados.
Se os tratamentos anti-retrovirais forem iniciados nas 48 a 72 horas após a potencial exposição ao vírus (por exemplo, uma relação sexual desprotegida) e se prolongarem por um mês, podem diminuir o risco de contaminação. Dirija-se ao hospital. O médico analisará se o tratamento se justifica.
Existem terapias que reduzem para 1 a 2% o risco de a doença passar de mãe para filho. São iniciadas durante a gravidez, estendendo-se ao parto e às primeiras semanas de vida. No geral, o parto é feito por cesariana e a amamentação eliminada, de modo a evitar a contaminação.
Se suspeita de ter sido infectado, faça o teste rapidamente, para conhecer o seu estado. Poderá, assim, iniciar o tratamento rapidamente. Assim, tem maior probabilidade de evitar a doença, poderá impedir a infecção de outras pessoas. Tratando-se de uma mulher, no caso de pretender engravidar ou já estar grávida, dará uma oportunidade ao bebé de nascer saudável.
Não existem grupos de risco exclusivos. Todos estamos expostos à doença. Cabe a cada um contribuir para a prevenção da sida.
Última atualização em dezembro de 2007
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