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A organização europeia das associações de consumidores (Euroconsumers), da qual a DECO faz parte, deu o seu contributo nesta batalha contra a obesidade. Elegendo a obesidade como tema de destaque para 2005, procurámos alertar a população para este grave problema de saúde pública, através de estudos, artigos, campanhas de sensibilização e seminários sobre o assunto.
Mais de um 1 bilião da população mundial adulta tem excesso de peso, metade da qual sendo mesmo obesa. Portugal não foge à regra: estima-se que 40% da população adulta e um terço das crianças tenham excesso de peso ou obesidade. As autoridades de saúde do Mundo inteiro estão preocupadas.
É urgente unir esforços para inverter esta situação. S e não forem tomadas medidas drásticas, metade da população mundial sofrerá de obesidade em 2025.
Além do tratamento das doenças provocadas pela obesidade, deveria apostar-se mais em campanhas de sensibilização e acções junto da população, alertando para a necessidade de alterar os hábitos de vida, com uma dieta apropriada e a prática regular de exercício. Com estas medidas, pode ser que as despesas com esta doença, que “come” 10 a 15% dos gastos com a saúde, atingindo os 235 milhões de euros, venham a ser reduzidos. Estudos mostram que pequenas perdas de peso de 5 a 10% já reduzem o risco de doenças associadas a colesterol, glicemia e tensão elevados.
Excesso de calorias e vida sedentária
O excesso de peso pode estar relacionado com doenças hormonais, propensão genética ou resultar de medicação específica (por exemplo, alguns antidepressivos, corticosteróides e insulina). Mas, geralmente, deve-se a uma alimentação desequilibrada e/ou à ingestão excessiva de calorias e a um estilo de vida sedentário.
Segundo um inquérito que publicámos na TESTE SAÚDE n.º 52, metade dos portugueses confessa não praticar exercício físico. Falta de tempo ou motivação, custos elevados e má qualidade das (poucas) infra-estruturas são os principais motivos apontados. Além disso, já não precisamos de nos mexer para ligar a televisão e mudar de canal, lavar a roupa, a loiça, ver filmes, etc. Tudo é automático, imediato e à distância de um clique.
O ritmo acelerado das sociedades modernas presta-se a refeições feitas à pressa e sem qualidade nutricional. Recorre-se cada vez mais a pratos pré-confeccionados de rápida preparação, e a aperitivos e guloseimas, muitos deles com elevado teor de açúcar, sal e gordura.
Crianças cada vez mais gordinhas
Em vez de praticar desporto, andar a pé e passear, preferem as consolas, os jogos multimédia, navegar na Net e ver televisão. No artigo sobre obesidade nas crianças e adolescentes, da TESTE SAÚDE n.º 56, referimos que cada criança entre os 4 e os 14 anos passa, em média, três horas por dia em frente do ecrã.
Muitas vezes, aproveitam o tempo que passam a ver televisão para petiscar bolos, bolachas ou batatas fritas, precisamente os alimentos focados nos anúncios que invadem o espaço da programação infantil, como mostrámos no artigo Crianças e televisão: publicidade pouco saudável , na PRO TESTE n.º 255. Anúncios atractivos pelos desenhos animados e oferta de brindes, pelo aspecto e sabor agradável dos alimentos, mas pouco interessantes do ponto de vista nutritivo, devido ao excesso de açúcar, sal e gordura. Não admira, pois, que um terço das crianças tenha excesso de peso.
Também num estudo recente sobre cantinas escolares, publicado em Setembro de 2005, verificámos que muitas escolas pecam por oferecer ementas com excesso de fritos e doces, desequilíbrios que podem contribuir para problemas de peso.
Riscos para a saúde
O excesso de peso não é só uma preocupação estética. A obesidade é, como pode consultar na TESTE SAÚDE n.º 58, uma doença com muitos riscos para a saúde. É responsável por doenças crónicas graves (hipertensão, doenças coronárias, acidentes vasculares cerebrais, diabetes, etc.) e mortalidade precoce.
Estima-se que a obesidade seja responsável por 70 mil novos casos de cancro por ano na União Europeia, nomeadamente cancro do endométrio, cólon e mama. Há também uma forte evidência de relação entre o excesso de peso e os cancros do útero, ovários, recto e próstata. Controlar eficazmente o peso permitiria reduzir para mais de metade estes cancros. Entre as causas de morte que podem ser prevenidas, a obesidade está em segundo lugar, a seguir ao tabaco.
Além dos problemas físicos, a obesidade tem repercussões na vida social e psicológica. A falta de mobilidade, o esforço exigido para as deslocações e eventuais dores nas articulações dos membros inferiores e o mal-estar com a imagem tendem a reduzir as saídas e os contactos sociais, podendo desencadear estados depressivos.
Embora não esteja provado que há mais casos de depressão nos obesos, um estudo recente norte-americano concluiu que os pensamentos e as tentativas de suicídio são mais elevados nos obesos do que na restante população. A imagem do “gordo bem disposto” é um mito: não são mais felizes e, por vezes, resulta numa forma de serem melhor aceite pela comunidade.
Serei gordo?
Calcule o seu índice de massa corporal (IMC ou BMI, do inglês Body Mass Index), usando o cálculo interactivo no nosso sítio na Net. Este também permite saber qual o IMC de uma criança (nesse caso, terá de assinalar o campo previsto para o efeito).
O IMC é um bom indicador do eventual excesso de peso e da gravidade da situação, mas não suficiente. A distribuição corporal da gordura, medindo a circunferência abdominal, é outro factor importante: mais de 102 cm de cintura no caso dos homens e mais de 88 cm nas mulheres indicam que é uma obesidade do tipo andróide, em forma de “maçã” (por oposição à obesidade ginóide, em forma de “pêra”, em que a gordura se concentra sobretudo nas ancas e nádegas).
A acumulação de gordura ao nível abdominal está associada a mais casos de hipertensão, colesterol elevado, diabetes de tipo 2 e, nas mulheres, a níveis elevados de androgénios (hormona masculina). Tudo factores propícios ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares (enfarte e acidente vascular cerebral).
Se tiver peso a mais, vá ao seu médico de família para avaliarem, em conjunto, qual a melhor solução de tratamento para si. Será submetido a vários exames e, em função da necessidade, poderá ser encaminhado para um nutricionista, endocrinologista, psicólogo ou outro especialista.
O nosso contributo
Além dos artigos publicados nas revistas da DECO PROTESTE, a associação de defesa de consumidores organizou um seminário sobre obesidade infantil, em Maio de 2005. Do trabalho desenvolvido ao longo do ano de 2005, várias exigências foram feitas para combater a obesidade. Eis as principais.
- Desenvolver campanhas informativas, sessões de esclarecimento, conteúdos para a Internet, material pedagógico que promovam, junto da população, uma alimentação mais saudável e estilos de vida mais activos.
- Os programas escolares devem aperfeiçoar a abordagem alimentação/saúde numa perspectiva prática, enaltecendo os benefícios de uma vida activa e saudável.
- Nos bares e cantinas escolares deve disponibilizar-se alimentos e bebidas saudáveis que não promovam uma alimentação hipercalórica. Os alimentos e bebidas disponibilizados nas máquinas em ambiente escolar também deveriam reger-se por este princípio.
- Os alunos deveriam ser envolvidos na escolha das ementas das cantinas, para melhorar a sua aceitação em relação às ementas oferecidas.
- É necessário promover uma política educativa que estimule a participação de crianças e jovens em actividades desportivas e de ar livre. Por exemplo, nas escolas, os espaços de recreio e desporto deveriam estar sempre abertos (mesmo durante as férias e aos fins-de-semana), sob supervisão de professores, monitores ou auxiliares de acção educativa, para promover a prática de exercício físico. Nas grandes cidades, deve apostar-se mais em espaços de jogo em áreas residenciais novas ou reabilitadas, em zonas pedestres e vias para bicicletas para todos os residentes.
- A publicidade dirigida às crianças, durante a programação infantil televisiva, não pode promover produtos alimentares ricos em açúcar, gordura e sal.
- A indústria alimentar e a restauração devem ser obrigados a reduzir os níveis de gordura, sal e açúcar, nomeadamente nos produtos alimentares e refeições destinados a crianças.
- No actual Programa Nacional de Combate à Obesidade do Ministério da Saúde, no qual a DECO participa, um dos objectivos traçados é melhorar a acessibilidade a consultas especializadas para a obesidade nos hospitais e o acesso aos tratamentos cirúrgicos, actualmente, com longas listas de espera. Também é necessário prever programas de intervenção em meio laboral e escolar; comparticipar medicamentos específicos para o controlo da obesidade. Além destes aspectos, é necessário alargar o âmbito deste plano de combate a toda a população e facilitar o acesso a consultas de nutrição, quase inexistentes nos centros de saúde.
Alguns sucessos
Nas conclusões do seminário da DECO sobre obesidade infantil, definimos medidas concretas, as quais foram também transmitidas às autoridades nacionais competentes (Ministérios da Saúde e da Educação, Agência para a Qualidade e Segurança Alimentar, etc.). Algumas medidas foram já tomadas após as exigências apresentadas.
- O código de boas práticas na comunicação comercial para menores da Associação Portuguesa de Anunciantes, finalmente, foi lançado em Setembro.
- A Associação Portuguesa das Empresas de Publicidade e Comunicação manifestou interesse em desenvolver acções conjuntas com a DECO no sentido de sensibilizar os profissionais para este problema.
- O código da publicidade está a ser alvo de revisão onde se prevê a proibição de anúncios a géneros alimentícios dirigidos a crianças.
- O Ministério da Educação já está a preparar as recomendações para bufetes e cantinas escolares.
Para a concretização de medidas de combate à obesidade, é necessário que os Ministérios da Saúde e da Educação, a Agência para a Qualidade e Segurança Alimentar, os profissionais de saúde, os professores, os autarcas, a indústria alimentar, etc., reconheçam a necessidade de reunir esforços e adoptem as medidas necessárias para combater a obesidade.
Algumas destas medidas já estão previstas nos planos de saúde da Direcção-Geral da Saúde, nos quais participámos. Só falta aplicá-las com a máxima urgência, a bem da saúde dos portugueses e para, mais tarde, podermos dizer que a obesidade foi a primeira epidemia vencida no século XXI.
Última atualização em dezembro de 2005
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Sumário
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