Emília Agostinho, presidente da associação "A Nossa Âncora"
Emília
Agostinho, 57 anos, perdeu o filho e o marido num acidente de automóvel há 23
anos. Demorou 3 anos a reencontrar-se, num processo gradual, com apoio da
família e de um psicólogo. Hoje, ajuda pais e irmãos em luto a vencer a dor.
A perda de um ente querido é das experiências que deixa mais marcas e
demoram muito tempo a atenuar. Sente isso no dia-a-dia? O luto é
muito difícil, em parte, porque não convivemos com a morte. A perda de um filho
é dos acontecimentos mais complicados, porque é visto como contra-natura.
Morremos nos hospitais, sem contacto nem acompanhamento dos familiares.
Antigamente, as pessoas morriam em casa e a família próxima estava presente até
ao fim, ouvia as últimas vontades e recomendações e isso ajudava à despedida. A
sociedade convivia e falava da morte. Hoje, o local socialmente aceite para
chorar é o funeral, mas os problemas vêm depois. É precisa uma educação para a
morte.
"Deixei os lençóis na cama do meu filho durante um
ano", revela Emília Agostinho.
Vê essa educação na escola? Na escola e não só. Esta
educação deve partir de uma aula sobre a vida. As mensagens devem ser adaptadas
à idade e começar no infantário. Para os mais pequeninos, podemos começar por
falar do ciclo de vida das flores e aproveitar o falecimento, por exemplo, de um
animal de estimação para ensiná-los a lidar com a perda, mantendo na mente os
momentos felizes por que passaram. Quando morre um familiar, o melhor é não
mentir. Por vezes, as crianças ficam traumatizadas quando lhes dizem que o avô
foi para as nuvens ou está a dormir. Temos relatos de miúdos aterrados, por
exemplo, com a ideia de a nuvem cair.
Como se anuncia a morte a uma criança? Se ainda não tiver
idade para compreender a situação, pode dizer-se, por exemplo, que partiu para
uma viagem longa. Se perguntar quando regressa, indicar que vai ficar onde está
e, mais tarde, os familiares podem ir ao seu encontro. Se a criança frequentar a
catequese ou praticar alguma religião, pode avançar-se que foi para o céu, pois
já existe essa referência. As crianças, por vezes, encaram melhor a situação do
que os adultos.
A associação também apoia crianças e jovens? Estamos
direccionados para os pais e a família que os rodeia, como irmãos e avós. Os
jovens e adolescentes raramente frequentam os grupos de ajuda, mas comunicamos
por telefone e, sobretudo, e-mail. É preciso não esquecer que os irmãos
não perdem apenas quem parte, mas a família toda, que perde a estrutura e
mergulha na dor. Enquanto os adultos tomam comprimidos para aguentar, os jovens,
em muitos casos, refugiam-se no álcool e nas drogas. Depois, se forem
acompanhados, abandonam, mas é preciso dar-lhes atenção. As escolas podem ter um
papel nesta ajuda e já tivemos contactos de professores a pedir apoio. As portas
da associação estão abertas.
Como surgiu "A Nossa
Âncora"? Começou com Maria Emília Pires. O professor João Sennfelt,
então responsável pela saúde mental no concelho de Sintra, sabia que tinha
perdido um filho e pediu-lhe para falar com uma doente na mesma situação e que
tentara o suicídio várias vezes. A conversa aconteceu e ambas se sentiram
melhor. Repetiram-se as conversas e o assunto passou de boca em boca. Juntou-se
mais gente e as reuniões em casa da Maria Emília tornaram-se incomportáveis.
Alguém do grupo teve a ideia de formar a associação e nasceu “A nossa
âncora”.
Qual o significado do nome? Âncora é algo que nos agarra
e faz sentir firmes. A associação pretende ser um local onde as pessoas se
sentem amparadas e compreendidas, até conseguirem caminhar sozinhas, sem
bengala.
Quanto tempo demora esse processo? É muito variável. Em
geral, antes dos 3 anos de luto pouca gente estará preparada. A média de
permanência na associação a receber apoio são 5 ou 6 anos, mas há pessoas que
demoram mais.
"A melhor homenagem que pode prestar ao filho que
partiu é reagir e retomar a vida", assinala a presidente de "A Nossa
Âncora".
Que tipo de apoio prestam? Temos os grupos de entreajuda,
que se reúnem uma vez por mês, atendimento individual, mediante marcação,
falamos ao telefone e por e-mail. Se necessário, encaminhamos para
psicólogos.
Como funcionam os grupos de entreajuda? Estes grupos
servem, sobretudo, para desabafar, partilhar experiências e mostrar que tudo o
que se sente é normal e possível de ultrapassar. Por exemplo, quando conto que
deixei os lençóis do meu filho na cama dele durante um ano, ouço histórias do
mesmo género e sinto alívio de quem as conta. Recentemente, uma mãe revelou que
guarda o bife temperado que guardara para o jantar do filho na noite em que
morreu. Estas coisas são normais e devem se faladas.
A partilha de experiências também aponta caminhos. Um exemplo: alguém
partilhou que, a seguir à morte do filho, começou a dar catequese e a fazer
natação, actividades que a ajudaram a retomar a vida. Mais tarde, outra mãe
anunciou que esta conversa a tinha incentivado a iniciar a natação.
Estes grupos são de formação espontânea? Não. Procuramos
estar em locais onde há mais solicitações para a associação, se tivermos pessoas
disponíveis para ajudar e locais para os encontros. Estes, em geral, são
disponibilizados por juntas de freguesia, igrejas e outras instituições. As
reuniões são orientadas por um moderador que passou pela experiência. Tem de ser
uma pessoa forte, que não fique doente ao ouvir os casos dos outros, e muito
perspicaz. A associação acompanha e dá formação.
Quantos grupos têm neste momento? Actualmente, temos 15
grupos espalhados pelo país e apoiamos cerca de 500 pessoas. Desde 2006, já
passaram pelos grupos estruturados, pelo menos, 2 mil. As pessoas e as
instituições começam a dar cada vez mais importância a esta ajuda. É uma questão
de saúde mental dos pais e da família mais próxima.
Quando a associação é procurada? Em geral, no segundo
ano de luto. No primeiro, está tudo muito desorganizado, há ajuda médica,
tomamos medicamentos e conseguimos ter algumas pessoas à nossa volta. No
aniversário, revivemos tudo. Depois chega o Natal, o aniversário do falecido e
perdemos a força.
Consegue traçar um perfil de quem apoiam? É transversal.
Temos pessoas com formação superior, militares e outros com pouca instrução.
Continuamos a ter mais mulheres, mas os homens já começam a procurar ajuda e,
nalguns casos, já vêm os dois cônjuges. Esta partilha é importante para a
consistência da união. Fora dos grupos, muitas vezes, o casal não fala. Têm
formas diferentes de viver a dor e, por vezes, não aceitam a do outro. Além
disso, quando se encaram, vêem o filho perdido e as coisas complicam-se. É
preciso aprender a respeitar a vivência do outro.
Recebem apenas associados? Não. Precisamos do dinheiro da
quota (€ 50 por ano) para funcionar, já que temos poucos apoios. Mas se a pessoa
não puder pagar é ajudada da igual forma. Temos utentes enviados por assistentes
sociais, por exemplo, que estão isentos de pagamento. Nos primeiros 3 meses,
todos podem frequentar sem se tornarem sócios, para testar a adaptação.
Já tiveram casos de insucesso? Sim, felizmente são
poucos. Só conseguimos ajudar quem quer ser ajudado. Já tive pessoas que dizem
claramente não querer fazer o luto. Em geral, são pessoas depressivas. Nestes
casos, procuramos ajudá-las através de conversas individuais ou encaminhamos
para o psicólogo ou psiquiatra.
Podemos falar um pouco da sua experiência? Como foi o processo de
luto? Muito complicado. Considero-me forte e achei que passados 7
dias devia ir trabalhar. Na altura, era responsável pelas reservas num hotel.
Fazia um esforço enorme para me concentrar, mas só conseguia pensar no meu
filho. Não falava com ninguém. Às vezes corria para a casa de banho para chorar.
Um dia senti uma dor de cabeça muito forte e fiquei paralisada. Levaram-me ao
médico, que me obrigou a parar e deu-me medicamentos para relaxar e dormir.
Mesmo assim, dormia, no máximo, meia hora seguida. Também não comi quase nada
durante um mês. Passava o dia no cemitério, porque me sentia mais perto dele. A
ausência física é muito difícil de suportar. Um dia perdi-me na baixa de Lisboa.
Não sabia onde estava. Reconheci um amigo, que me levou a casa, e tomei
consciência de que precisava de ajuda. Consultei um psicólogo. Ajudou-me a
arrumar a cabeça e depois, gradualmente, fui retomando as rotinas. Passaram 23
anos e, todos os dias, me lembro do meu filho, com saudade, mas sem a dor
sufocante.
Que mensagem deixa a pessoas em situação
idêntica? Gostaria que pensassem que é possível retornar à vida em
paz, porque há muita gente que precisa deles, como outros filhos e familiares ou
obras de voluntariado. Mesmo quem perde um filho único tem de acreditar que a
sua vida faz sentido. Quem partiu não iria gostar de vê-lo derrotado, em eterno
sofrimento. A melhor homenagem a prestar ao filho é reagir.
Como podem contactar a associação? Convém ligar para a
sede. Se não atendermos, pedimos para deixar apenas o nome e número de telefone,
para contactarmos mais tarde. Também temos um e-mail. Os contactos
estão no nosso sítio [ver links úteis]. Damos informação sobre os
grupos locais onde dirigir-se ou acompanhamos à distância.
E as pessoas que não queiram frequentar os grupos de apoio, o que
podem fazer? Arranjar uma forma de deitar cá para fora as emoções:
escrever, ler sobre o assunto, ocupar-se com actividades manuais de que gostem,
como cozinhar ou pintar. Se possível, conversem com alguém. Podem, por exemplo,
ligar para a associação e falar sem se identificar. Se tiverem vontade de
chorar, façam-no até à exaustão. As obras de voluntariado são uma boa solução
para canalizar o amor que têm dentro de si.
"Deixem chorar e respeitem a tristeza", recomenda
Emília Agostinho aos amigos dos pais em luto
Que recomendações deixa aos amigos das pessoas em luto? Continuem presentes. Mais do que a palavras de conforto, é importante a
presença, um abraço…Quando morreu o meu filho, lembro-me apenas de uma amiga que
ficou ao meu lado em silêncio e de uma senhora que nunca conheci que foi à
igreja dizer-me "sei a dor que está a passar. Também perdi um filho. Pensava que
não era possível voltar a ser feliz, mas é, embora de outra forma." Estas
palavras ficaram gravadas, porque quem as proferiu sabia do que falava.
Que podem fazer, então, os amigos? Se houver irmãos
pequenos, os amigos podem dar uma ajuda preciosa: ir buscá-los à escola, tratar
deles, levá-los a passear. Os pais estão centrados na dor e, por vezes,
esquecem-se de ir às compras ou de confeccionar refeições. Telefonem, mas nunca
perguntem “como estás?”. É preferível dizer que querem saber se precisa de
alguma coisa. Levem uma refeição, convidem para passar uns dias fora e,
sobretudo, deixem chorar e respeitem a tristeza. Não há um tempo estipulado para
o luto. Cada um vive à sua maneira.