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Interrupção voluntária da gravidez: entrevista a Maria José Alves, ginecologista

A maioria das mulheres que recorre aos serviços públicos não pode escolher o método, revela a experiência de 35 utentes no nosso inquérito. A coordenadora da consulta de IVG da Maternidade Alfredo da Costa comenta os resultados.

Em cada 10 mulheres que fizeram uma interrupção voluntária da gravidez (IVG) no Serviço Nacional de Saúde, 8 não escolheram o método, como manda a lei: foi-lhes imposto o medicamentoso. As que recorreram à clínica privada tiveram mais voto na matéria e a maioria foi submetida a aspiração cirúrgica.

O inquérito foi realizado entre Outubro de 2009 e Março de 2010 em Portugal, Espanha e Itália. Os questionários nacionais foram distribuídos pelos estabelecimentos públicos e privados autorizados a praticar IVG. Obtivemos 348 respostas anónimas, 35 das quais portuguesas. Os dados não são representativos, mas dão uma ideia do funcionamento dos serviços. Maria José Alves, ginecologista, enfrenta os problemas no dia-a-dia e aponta soluções.

Maria José Alves, ginecologista 
“Ainda há mulheres que ignoram a possibilidade de fazer um aborto legal, em segurança.”

A lei que autoriza a interrupção da gravidez tem 3 anos, mas continuam as notícias de aborto clandestino. Estes dados são conhecidos dos profissionais? Como se justifica?
Não conhecemos os números, como da lei. Muitas vezes sabemos dos abortos clandestinos pelas mulheres que chegam com complicações. A nossa experiência e os dados da Direcção-Geral de Saúde de 2009 mostram que diminuíram nos últimos anos.
O aborto clandestino não acontece só em Portugal. Noutros países, como a Suíça, com leis mais antigas do que a nossa, continuam a registá-lo. Por vezes, há situações não contempladas na lei, por exemplo, devido ao tempo de gestação. Haverá também mulheres que, por dificuldade de acesso aos serviços de saúde, recorrem à automedicação ou a locais inseguros e profissionais pouco qualificados.

Que complicações chegam aos serviços?
Normalmente, estão relacionadas com restos ovulares: mulheres que expulsam apenas uma parte do produto da concepção.

A lei e os serviços respondem às necessidades?
Provavelmente, a lei não responde a todas as necessidades, mas proporciona segurança à maioria que interrompe a gravidez por volta das 8 semanas.
Os serviços, apesar das dificuldades, reagiram bem. Abriram as consultas, por vezes, com poucos recursos, e houve um esforço para atender todas as mulheres. É óbvio que há problemas de funcionamento.

Pode dar-nos exemplos?
A dificuldade ou impossibilidade de as mulheres escolherem entre o método cirúrgico e medicamentoso. Ambos são seguros, mas implicam procedimentos diferentes e podem ter complicações. A mulher aceita-as melhor quando a decisão é sua.

O que pode ser feito?
Os profissionais que recorrem um pouco mais à cirurgia devem divulgar como o fazem sem grande incómodo para as estruturas. Estou à vontade para falar, porque a Maternidade é a instituição pública com maior proporção de abortos cirúrgicos.

Mas não dão oportunidade de escolha a todas as mulheres... 
Não, mas sugerimos mais cirúrgicos, se indicados, do que outras instituições. Quando uma mulher pede este método, porque, por exemplo, não quer que, em casa, saibam da interrupção ou já teve problemas com os medicamentos, aceitamos. De início foi um pouco complicado: tivemos de lutar na Maternidade e, por vezes, temos de lembrar aos colegas que as mulheres têm direito de opção.

Porquê a primazia do aborto medicamentoso nos serviços públicos?
Em Portugal, recorremos mais ao aborto medicamentoso do que noutros países porque começámos a trabalhar depois deles, quando já se sabia que o método é seguro e eficaz. Foi também a única forma de implementar a lei. Com os recursos que tínhamos e a pouca prática dos profissionais em aborto cirúrgico, era impossível organizar os serviços para atender todas as mulheres sem dar primazia ao medicamentoso. As mulheres aceitam-no bem, provavelmente, porque já era uma prática antes da lei.

Em que situações é mais indicado o aborto cirúrgico?
Mulheres com anemia ou a tomar anticoagulantes, por exemplo, porque os medicamentos apresentam maior risco de perda de sangue. Se a mulher tiver alergia aos fármacos que utilizamos ou esteja a tomar algo que possa interagir com estes, também devemos optar pelo método cirúrgico.

Há casos em que não seja recomendado?
Quando há grande risco anestésico. Nas pacientes com doença respiratória ou obesidade, pode ser preferível o medicamentoso. O mesmo acontece com as que apresentam malformações uterinas, para evitar lesões.

Maria José Alves, ginecologista 
“As clínicas privadas induzem a escolha do método cirúrgico, porque exige menos acompanhamento.”

Os privados tendem a dar mais escolha às mulheres e recorrem mais ao método cirúrgico...
Não dão mais alternativa, organizam-se de modo a induzir a escolha cirúrgica. Por vezes, “diabolizam” o método medicamentoso, o que me parece pouco sério.
Nestes locais, preferem o método cirúrgico porque o medicamentoso exige uma logística mais pesada: mais consultas e, como implica maior risco de hemorragia, que pode ocorrer passados dias, requer maior vigilância e o suporte de um serviço de urgência, que não existe nestes locais.

Numa interrupção com medicamentos, o que acontece se a mulher se arrepender a seguir à primeira toma?
Se não abortar, a gravidez pode prosseguir. O medicamento não causa malformações ou outros problemas. Mas o primeiro medicamento pode ser suficiente para desencadear a interrupção.

No nosso estudo, algumas mulheres queixaram-se de falta de privacidade. O que pode ser melhorado?
É importante debater o aborto de forma aberta e natural. Algumas instituições têm especial cuidado com as instalações e oferecem locais reservados. Pode ser bom para certas mulheres, mas é também um reflexo do estigma. Há locais onde a consulta de interrupção funciona em conjunto com outras. Por exemplo, num gabinete fazem interrupções, seguimento da gravidez e tratamentos de corrimentos. Quando a mulher é chamada, ninguém vai olhá-la ou questionar o que está ali a fazer.
A privacidade pode colocar-se ao nível dos profissionais: não devia ser obrigatório passar pelo centro de saúde, por exemplo. A pessoa pode não querer ser reconhecida ou falar sobre o assunto com o médico de família ou a enfermeira que dá a vacina aos filhos. As mulheres deviam ter acesso directo ao hospital.

Algumas das nossas inquiridas sentiram-se culpabilizadas pelos profissionais...
Os profissionais vivem em sociedade e, por vezes, transportam o estigma. Ainda ligamos muito o aborto a uma experiência e sentimentos negativos e transmitimo-lo às mulheres. Temos de fazer formação com as equipas, falar do que sentimos e reflectir sobre a nossa forma de agir.

As mulheres estão informadas sobre a lei e os direitos?
Algumas organizações não governamentais, por vezes, dão conta de mulheres que ainda não sabem da implementação da lei e da possibilidade de interromper a gravidez de forma segura e gratuita. A maioria sabe desta possibilidade, mas muitas desconhecem os direitos.

Maria José Alves, ginecologista
“Ainda ligamos muito o aborto a uma experiência e sentimentos negativos.”

E sobre contracepção, há informação suficiente?
Há bastante informação, mas é preciso agilizar o acesso. Os centros de saúde e os hospitais devem ter, por exemplo, consultas de planeamento familiar em horário pós-laboral. Um horário alargado permite recorrer à consulta sem dar justificações ou comprometer o trabalho.
Mais: deve aproveitar-se a presença da mulher no centro de saúde por outro motivo para falar de contracepção. Pode ser suficiente para esclarecer dúvidas e, sobretudo, reforçar a motivação, porque não é fácil suportar os efeitos secundários e o ritual de alguns métodos.
É muito importante que médicos, enfermeiros e outros profissionais investiguem as dificuldades em usar contraceptivos e formas de ultrapassá-las. Depois, é preciso educar os técnicos ao nível das falsas contra-indicações. Muitos ainda pensam, por exemplo, que o dispositivo intra-uterino não deve ser usado por mulheres que ainda não tiveram filhos e querem ter, o que está errado.

A lei prevê a distribuição gratuita de contraceptivos...
Sim, para toda a gente. Mas, por vezes, há ruptura de stocks. Temos de perceber se os estabelecimentos calculam mal as necessidades ou o problema está nas ARS e atacar a origem. Além disso, não pode haver horários rígidos para distribui-los. Se a pessoa vai à hora de almoço, não podemos dizer-lhe para voltar às 3 ou 4 da tarde. Os recursos são poucos em todo o lado. Devemos ser capazes de fazer melhor. Pode haver, por exemplo, um armário para armazená-los com os produtos e 3 ou 4 pessoas com acesso. A saúde sexual e reprodutiva é essencial para a felicidade das famílias. Temos de rentabilizar os serviços para responder às necessidades.

  Última atualização em setembro de 2010
Interrupção voluntária da gravidez: entrevista a Maria José Alves, ginecologista

 
 
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