Duas zonas euro

Data da publicação: 23/08/2010

Força económica do Norte e Centro contrasta com dependência do Sul

O crescimento anual do Produto Interno Bruto (PIB) da zona euro atingiu os 1,7% no segundo trimestre de 2010, mas este período foi o mais turbulento desde que o euro foi lançado, em Janeiro de 1999.

Endividamento excessivo
Devido à crise económica e financeira, os países mais industrializados do mundo permitiram que as suas posições financeiras se deteriorassem bastante entre 2008 e 2009. E o mercado foi comprando a dívida soberana dos países industriais, cada vez mais abundante.

Mas, no final de 2009, surgiram as preocupações do mercado sobre as capacidades de um país-membro se refinanciar e de cumprir com as suas obrigações. Colocou-se a possibilidade de um descalabro da Grécia e de outros países da periferia europeia, uma problemática que levou alguns comentadores a proclamarem que o fim da experiência da zona euro estaria para breve.

Então, a zona euro dividiu-se em dois grupos, enfatizado por dinâmicas de concorrência distintas.

  • O grupo dos países do Norte e do Centro: Alemanha, Benelux, Áustria e Finlândia. São países com economias fortes que apresentam baixos défices e uma dívida pública relativamente baixa que, durante uma década, haviam combinado ganhos de produtividade e moderação salarial.

  • O grupo dos países do Sul: Grécia, Portugal, Espanha e a própria Itália, que apresentam as maiores dívidas públicas, em termos de % do PIB, cujas economias se tornaram dependentes das economias de outros países europeus a fim financiar a sua grande dívida pública e/ou deficits. Uma realidade que se reflectiu na rápida progressão do risco associado a estas economias e na subida dos juros de financiamento das economias.

Ao contrário dos países do Norte, nos do Sul, procedeu-se a um acerto salarial, no sentido de os aproximar do Norte, e o longo período de crédito barato e disponível permitiu aos consumidores um aumento dos salários reais (antes do euro a inflação atenuava os crescimentos salariais), que desencadeou um endividamento dos consumidores na aquisição de bens duráveis (carros e habitações). 

Mas os ganhos de produtividade dos países do Sul permaneceram baixos e muito aquém dos níveis da Alemanha.

Imposição da austeridade
Os governos europeus procuram pôr as finanças em ordem, prometendo reduzir ou até anular os fortes deficits, através de uma redução dos custos do sector público. Mas o corte na despesa é apenas uma parte do problema, para o qual o aumento da carga fiscal terá de ocorrer.

Com efeito, serão exigidos sacrifícios aos consumidores e às empresas, taxando-os a fim de aumentar a receita dos impostos, que por sua vez vão reduzir o rendimento líquido disponível dos agentes económicos, implicando uma redução do consumo e um incentivo à poupança.

O objectivo dos orçamentos e défices equilibrados começaram a envolver sacrifícios no sector privado, cujo efeito perverso pode conduzir a um período de retracção da procura e retardar o crescimento económico.

Daqui pode deduzir-se que a recuperação no grupo de países da zona euro se processe em duas velocidades. De um lado, os países mais competitivos, liderados pela Alemanha, cuja produtividade dependerá mais da procura externa do que do mercado interno e de outro lado, os países com parcas condições de concorrência, com uma baixa produtividade e um lento ritmo de reformas, cujo ajustamento poderá levar décadas.

A reter
Em geral, os anos vindouros prometem um rude despertar das taxas de juro, restringindo o recurso ao crédito e forçando os agregados familiares a cortar nas despesas.

• Ao nível do mercado accionista, as empresas cuja actividade se desenvolve exclusivamente dentro da Europa vão provavelmente encontrar um sério desafio nos próximos anos. Os lucros concentrar-se-ão nos sectores mais expostos aos mercados estrangeiros.

Ao nível interno, algumas companhias poderão crescer ao suprir os cortes nos serviços prestados pelos governos, que procuram controlar custos e reduzir a sua presença em sectores tais como os cuidados médicos, a segurança e a educação.

• No mercado obrigacionista, as perspectivas não são melhores. De momento, os rendimentos estão perto dos níveis mais baixos de sempre e mais cedo ou mais tarde as taxas de juro devem elevar-se, para manter a procura e as ligações com os rendimentos actualmente deprimidos e particularmente desinteressantes.

Quando as taxas de juro sobem, as obrigações existentes no mercado passam a ser transaccionadas no mercado por um valor inferior. A perda de valor dos títulos penaliza o valor do património dos seus detentores.

Por este motivo, e apesar de comportarem o risco cambial inerente às moedas em que são denominadas as obrigações, continuamos a preferir os títulos de dívida dos países com endividamento relativamente baixo, tal como a Suécia, a Suíça, a Austrália e o Canadá.

-->