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Escolas de condução: manobras perigosas

Informação pouco transparente, concorrência em ponto morto e muitas facilidades prometidas na obtenção do atestado médico foram os principais problemas encontrados pela DECO/PRO TESTE em muitas das 215 escolas de condução visitadas.

Dado que mais tarde ou mais cedo, chega a hora de aprender a rodar pelo asfalto, aquela revista de consumidores decidiu analisar como funcionam as escolas de condução. Para conhecer os preços praticados e a informação prestada, em Fevereiro e Março de 2003, a equipa da PRO TESTE visitou, de forma anónima, 215 escolas. Segundo a PRO TESTE, a maioria dos estabelecimentos (113) não prima pela transparência, limitando-se a escrever o preço total da carta geralmente num cartão da escola. Em 59 escolas, apenas indicaram aos colaboradores daquela revista o preço oralmente ou, apesar de escrito, deram um valor aproximado. Contudo, 43 escolas apresentaram o preço indicando as principais parcelas incluídas e, por vezes, discriminando os respectivos encargos.

Das 215 escolas visitadas, em 106 foi detectada, pelo menos, uma situação irregular em matéria de informação afixada: tabela de preços ou referência ao livro de reclamações não afixadas em local visível pelo público.

Poupe centenas de euros, aconselha a PRO TESTE
Em Portugal Continental, o preço da mesma carta de condução varia entre 430 euros (Gaiense, em Vila Nova de Gaia) e pouco mais de 930 euros (Infante de Sagres, Praça do Município, em Portimão), ou seja, duas vezes mais. Entre escolas da mesma cidade, também se encontraram diferenças enormes. Por exemplo, no Porto, a carta pode custar entre 450 euros, nas escolas AB, Auto-Águia, Estádio e Pincor, e cerca de 760 euros, se optar pela escola do ACP (só para sócios e respectivos familiares). Quando for à escola, a PRO TESTE aconselha também a certificar-se do montante que terá de pagar caso reprove nalguma prova do exame. Esta repetição pode aumentar brutalmente o custo final.

Se, nalgumas zonas do país, pode poupar muito dinheiro, noutras, a concorrência está em ponto morto. Ao ter em conta o preço mínimo e máximo de cada região, os técnicos da PRO TESTE descobriram uma realidade preocupante: em 11 localidades, a variação de preços é nula ou quase inexistente. Os casos mais flagrantes são os de Beja e Viseu, onde a carta custa o mesmo preço em todas as escolas visitadas. Mas também em Castelo Branco, Évora, Guarda, Portalegre, Setúbal, Torres Vedras e Viana do Castelo, a situação é desfavorável ao consumidor. Em Bragança e Vila Real, quatro das escolas visitadas praticam o mesmo preço. O que se passa indicia uma prática ilegal de preços concertados. Na maioria dos casos, os preços estão nivelados por cima.

Atestados a alta velocidade
O atestado médico é justificadamente obrigatório. Por isso, é frequente as escolas terem acordos com um médico que se desloca às suas instalações. Das 165 escolas onde era possível tratar do atestado, em 54 os resultados foram uma surpresa pela negativa. Nestas, disseram que não era preciso ir à consulta. Nalguns casos, ainda perguntaram se tinha problemas de saúde ou se usava óculos. Face a uma resposta negativa, a reacção foi idêntica: a consulta era dispensável. Quando fosse inscrever-se, seria preenchido o impresso do atestado, a respectiva quantia seria paga e a escola tratava do assunto com o médico. “Ou seja, poderão estar a ser dadas muitas facilidades na obtenção dos atestados: mais uma situação ilegal e perigosa”, denuncia a PRO TESTE.

Quanto ao número ou duração das aulas de condução anunciadas, a revista dos consumidores encontrou sete infractores. Em três escolas de Braga, foram propostos descontos se o candidato tivesse menos aulas do que as 30 exigidas por lei. Em Ponta Delgada, todas indicaram um número de aulas inferior a 30 e com menos de 50 minutos.

Em 2003, comemora-se o Ano Europeu das Pessoas com Deficiência e apenas 33 escolas responderam que estão preparadas para ensinar os deficientes motores (em cadeira de rodas) a conduzir. Das outras, a maioria não recusa esta possibilidade, mas apenas na condição do candidato comprar o carro antes de ter a carta ou de o arranjar por outros meios (empréstimo ou aluguer, por exemplo).

Proibido abusar
Em matéria de atestados médicos, os consumidores exigem uma fiscalização rápida da parte da Direcção-Geral de Viação. Os indícios são de tal modo evidentes que a Ordem dos Médicos poderia tomar uma atitude, lembra a PRO TESTE na edição de Junho. Para aquela revista, também é inaceitável que as escolas baseiem os seus descontos no número de aulas práticas ou que tenham cursos com menos aulas (ou mais curtas) do que é exigido por lei.

Os consumidores reivindicam jogo limpo em matéria de informação: os responsáveis das escolas terão de dedicar mais atenção aos dados que fornecem e colocar a tabela de preços em local bem visível. “Do que está à espera, então, a Inspecção-Geral das Actividades Económicas para impor transparência?”, pergunta aquela revista. Em 11 cidades, os preços indicados à equipa da PRO TESTE revelam a possível existência de uma política de preços concertados. Ora tal prática impede o consumidor de escolher com base no preço. A confirmar-se a suspeita, a Autoridade da Concorrência tem de punir severamente os infractores.

No entender daquela revista, “a começar nas escolas e a acabar nas entidades que deveriam fiscalizar, muito mal se tem conduzido este sector em Portugal. A legislação até é bastante completa, mas não está a ser cumprida”. Assim, a PRO TESTE lança um último apelo: “Porque os consumidores estão a ser bastante prejudicados, prego a fundo na fiscalização, Srs. Ministros da Economia e da Administração Interna, Carlos Tavares e Figueiredo Lopes”.

| PRO TESTE n.º 237 – Junho de 2003 – Páginas 8 a 13 |

29.06.2003

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