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A esclerose múltipla é difícil de diagnosticar e não tem cura, mas é possível reduzir os sintomas e manter a qualidade de vida.
José Rolim, 44 anos, ainda estudava enfermagem quando a doença se manifestou pela primeira vez, através de visão dupla. O problema desapareceu espontaneamente e José desvalorizou. “Pensei que fosse sugestão dos muitos sintomas que estudava”, relembra. Por volta dos 30 anos, surgiram novos sinais: problemas em andar, tonturas e dores de cabeça. Falou com uma neurologista, fez exames e soube o diagnóstico.
Como José, 4300 portugueses sofrem de esclerose múltipla, segundo o primeiro estudo nacional sobre a incidência e perceção da doença, divulgado em março deste ano. Esta investigação revelou que 65% da população desconhece a patologia crónica do sistema nervoso central. A sua evolução é imprevisível e pode causar diversos graus de incapacidade. Ocorre devido a episódios repetidos de inflamação dos nervos. Esta destrói a mielina, substância envolvente das fibras nervosas dos neurónios, deixando cicatrizes no cérebro e na espinal medula. A mielina acelera a propagação do impulso nervoso. Se houver lesões, a comunicação é mais lenta, com repercussões nas zonas comandadas pelos neurónios afetados.
Sinais comuns
- Transtorno ao nível do tato, como entorpecimento, formigueiro nas mãos e nos pés, dificuldade em sentir a dor e a temperatura.
- Problemas motores, que variam entre a debilidade muscular e a paralisia, passando por rigidez, espasmos e diminuição da destreza.
- Tremores, dificuldade em manter o equilíbrio, coordenar os movimentos e andar.
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Causas desconhecidas
A esclerose múltipla está classificada como doença autoimune, o que significa que o sistema imunitário (defesas do organismo) vê a mielina como “inimigo” e ataca-a. Resultado: o nervo inflama, por vezes, fica danificado e a mielina degrada-se.
Não se conhecem claramente as causas desta anomalia, mas pensa-se que podem estar envolvidos fatores genéticos e ambientais. O tabaco aumenta a probabilidade de desenvolver a doença e contribui para a evolução mais rápida.
Cerca de 15% dos pacientes tem familiares próximos com a patologia. É o caso do nosso entrevistado José Rolim: a irmã também sofre de esclerose, embora numa forma menos grave.
Os investigadores constatam ainda que os pacientes com glóbulos brancos de características específicas estão mais propensos à doença.
A esclerose múltipla parece ser mais comum entre os habitantes de zonas temperadas, como é o caso de Portugal. Estudos demonstraram que as hipóteses de contrair a doença diminuem quando os jovens mudam de áreas de risco para climas tropicais antes dos 15 anos. Entre as possíveis razões para o fenómeno pode estar a exposição precoce a vírus característicos da região.
Sintomas variáveis
A esclerose múltipla manifesta-se em contínuo ou por ataques, os chamados “surtos”, que podem durar dias, semanas ou meses. Os sintomas dependem da localização e extensão das lesões Cada paciente apresenta um conjunto específico, que pode variar no tempo. Se as fibras nervosas desmielinizadas conduzirem, por exemplo, informação sensorial, como o “quente”, o “frio” ou a dor, a capacidade de identificar estas sensações é afetada. Caso os nervos danificados coordenem os movimentos, estes tornam-se mais lentos ou perdem-se, como acontece a José Rolim.
Em 15% dos casos, os primeiros sinais são distúrbios visuais, incluindo visão dupla ou confusa, distorção de cores e cegueira parcial, devido à degradação do nervo ótico Em geral, a visão central é mais afetada do que a periférica Se o dano ocorrer na zona do cérebro que controla os movimentos oculares, os olhos mexem-se a diferentes velocidades e o paciente vê a duplicar, quando desvia o olhar de um ponto para outro.
Embora com menos frequência, podem surgir dores, fadiga, perturbações urinárias e intestinais, disfunções sexuais, perturbações no discurso, problemas de concentração, depressão e euforia. Isabel Leitão, empresária de 44 anos, sofre de cansaço extremo e perturbações de memória. Para contornar as dificuldades, aponta tudo o que tem de fazer e tenta manter uma rotina nas tarefas, para que nada falhe.
Caso sinta algumas das dificuldades referidas, consulte o seu médico de família ou um neurologista. Um exame físico e a história clínica do doente dão as primeiras indicações, mas outros exames são necessários
Em geral, o médico começa por prescrever uma ressonância magnética, seguindo-se o teste de potenciais evocados, com elétrodos na cabeça, e a punção lombar, para retirar uma amostra de medula espinal. Nalgumas situações, estes testes não são conclusivos, pelo que é necessário submeter o doente a mais análises, para descartar outros problemas, como lúpus ou a doença de Lyme.
Evolução imprevisível
Qualquer pessoa pode desenvolver esclerose múltipla. O diagnóstico, em geral, ocorre entre os 20 e os 40 anos e o prognóstico é difícil de estabelecer. Porém, os especialistas propõem uma classificação da doença com base na evolução.
Segundo esta categorização, a esclerose múltipla recidivante-remitente é a mais comum na altura do diagnóstico. Após uma crise de sintomas, que dura entre 24 horas e várias semanas, o doente recupera. Ao fim de algum tempo, surge novo surto e o ciclo repete-se.
Cerca de 15% dos doentes sofrem da chamada esclerose múltipla primária progressiva: os sintomas pioram a pouco e pouco.
Na esclerose secundária progressiva, o doente passa por um período de sintomas e recuperações. Depois, as dificuldades agravam-se por mais de 6 meses.
Alguns autores distinguem ainda outra forma de evolução: a progressiva recidivante, com agravamento progressivo dos sintomas, intervalado por ataques agudos.
Em qualquer fase, a doença piora quando o paciente é atacado por uma infeção viral. A gravidez reduz os sintomas e os surtos e o parto agrava-os, mas não há provas de que interfira na evolução. A nossa entrevistada Isabel Leitão, por exemplo, não teve um único surto durante a gravidez, mas após o nascimento do filho ficou paralisada, a ponto de não conseguir pegar no recém-nascido. Melhorou passadas algumas semanas.
Travar o avanço
Não existe cura para a esclerose múltipla, mas existem vários tratamentos que reduzem os sintomas e atrasam a progressão da doença O principal objetivo é melhorar a qualidade de vida.
Para os “ataques”, em geral, são prescritos medicamentos corticosteroides. Estes anti-inflamatórios inibem o sistema imunitário e reduzem a duração dos sintomas, mas não previnem novos surtos, nem influenciam o prognóstico. Além disso, não devem ser usados durante longos períodos, por não estar comprovada a sua utilidade a longo prazo e terem efeitos secundários consideráveis. Contribuem, por exemplo, para o aumento de peso, infeções, fadiga, úlceras e psicoses.
O beta interferão e o acetato de glatiramero visam limitar a progressão da doença. Não se conhece o mecanismo de ação destes medicamentos, mas parecem travar a destruição da mielina e a duração e gravidade dos surtos. Falta evidência sobre os efeitos a longo prazo.
Os tratamentos com imunodepressores, quimioterapia e anticorpos também parecem reduzir a frequência e intensidade dos ataques, mas a fraca evidência sobre a eficácia e os efeitos secundários levam a que sejam indicados apenas para casos-limite. Por exemplo, a quimioterapia aumenta o risco de leucemia e problemas cardíacos; já os anticorpos potenciam as infeções graves no cérebro O médico deve manter os doentes sob particular vigilância e assegurar que estão conscientes dos riscos.
Em qualquer fase, pode haver necessidade de outros medicamentos para tratar sintomas, como relaxantes musculares, analgésicos e tranquilizantes.
Atividade regular e apoio psicológico
- Muitos doentes seguem uma vida ativa, embora tendam a cansar-se mais e a responder de forma mais lenta às solicitações. É importante ajudar o organismo a manter-se funcional.
- Se possível, faça exercício regular, como andar de bicicleta, a pé ou nadar. Ajuda a manter o equilíbrio e a preservar os movimentos.
- A fisioterapia é útil. São aconselhados exercícios de relaxamento, re-educação respiratória ou locomotora, de acordo com a doença. A terapia da fala também é benéfica nalguns casos.
- As terapias ocupacional e de grupo promovem a autoestima e ajudam a enfrentar limitações físicas e mentais. As associações de doentes, em geral, disponibilizam estes apoios.
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Última atualização em maio de 2011
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