Mesmo sem cura, a perturbação bipolar
pode ser controlada.
Medicação adequada, apoio psicológico,
médico e familiar são a receita para
ter uma vida mais estável.
Sinais
de
alerta
Entrar numa loja e
passar um cheque de mil euros, sem cobertura, para comprar roupa de um
tamanho
que não é o seu. Ouvir a notícia de
uma catástrofe no telejornal e acreditar
que ocorreu por sua culpa. Estes são episódios
bem conhecidos por quem sofre da
doença bipolar, que já foi designada por
“maníaco-depressiva”.
Excêntricos e
cativantes, os doentes bipolares podem passar por períodos
de grande energia e
criatividade na vida e no trabalho. Mas as fases
“enérgicas” rapidamente podem
dar lugar a um estado de euforia e irritabilidade ou
depressão que têm um
grande impacto na vida profissional, social e nas
relações com os outros. Sem
tratamento, as crises podem tornar-se mais frequentes e sucessivas e
trazer
outras complicações, como ruína
financeira, comportamentos violentos ou
promíscuos (devido a um estado de grande
desinibição) e abuso de álcool e de
drogas.
O distúrbio bipolar
é uma
doença psiquiátrica caracterizada por
variações acentuadas do humor, com crises
repetidas de mania ou de hipomania e depressão. Qualquer um
dos dois tipos de
crise pode predominar numa mesma pessoa, com diferente intensidade e
duração.
Nas crises de mania, os
pacientes podem passar por um estado expansivo ou irritável
e ter actividade
mental e física intensas, pois as necessidades de sono
também diminuem, sem
sofrer fadiga. A sensação de grandeza e poder
leva-os, muitas vezes, a
comportamentos irresponsáveis e, nos casos mais graves, a
ter ilusões e alucinações.
Alguns doentes
atravessam também fases de hipomania, mais ligeiras do que
as de mania, em que
conseguem manter-se capazes e sem delírios. Nesta altura,
é frequente pararem
com a medicação e segue-se, geralmente, uma crise
de mania ou de depressão.
Num episódio de
depressão, o doente sente-se triste sem razão
aparente e perde o interesse nas
actividades diárias. Registam-se também
mudanças significativas de apetite e
dos hábitos de sono, acompanhadas por sentimentos de
ansiedade e irritabilidade
e pensamentos recorrentes de morte e suicídio.
Crises
sob
controlo
Em média, são
precisos 10
anos para chegar ao diagnóstico da doença.
Algumas pessoas que sofrem um
primeiro episódio não voltam a ter outro durante
muito tempo. Durante a sua
vida, o paciente pode passar por 8 ou 10 episódios de mania
ou de depressão
(mais frequentes), que nada têm de previsíveis ou
regulares.
O primeiro passo para
identificar o problema é consultar o médico, que
analisará a história clínica e
pessoal do doente, bem como os sintomas que tem ou já teve.
Depois, é preciso
afastar hipóteses de patologias com sintomas semelhantes,
como a depressão e a
esquizofrenia. Os sintomas depressivos são mais
fáceis de identificar e, muitas
vezes, o doente só procura tratamento nas fases de
depressão. A medicação
antidepressiva pode até estimular os episódios
de mania. Na depressão bipolar,
que dura menos tempo do que a “unipolar”, os
sintomas depressivos são mais
atípicos e desenvolvem-se progressivamente. Além
disso, a bipolaridade inclui um
estado de hipomania ou de mania, onde ocorrem, por vezes,
ilusões e
alucinações. Estas levam a semelhanças
com a esquizofrenia. Mas estes últimos
doentes distinguem-se por não terem episódios de
mania ou de hipomania e por
serem inexpressivos, ao contrário dos bipolares.
Na fase inicial do
tratamento, o objectivo é controlar os sintomas dos
diferentes episódios.
Depois, aposta-se em reduzir a frequência das crises e evitar
os ciclos e as
sucessivas recaídas. Os médicos costumam receitar
estabilizadores de humor,
como o lítio, a carbamazepina e a lamotrigina, que evitam
episódios graves de
depressão e de mania e diminuem muito a probabilidade de
novas ocorrências.
Junto com estes, os antidepressivos e antipsicóticos (os
últimos para controlar
as alucinações ou delírios)
complementam o tratamento.
Em fases de mania, é
comum
que o doente, porque se sente eufórico e poderoso, deseje
prolongar esse estado
e pare com a medicação. Além da
medicação, o acompanhamento
psicoterapêutico
numa associação de saúde mental e o
apoio familiar são decisivos para controlar
as mudanças extremas de comportamento e estimular a
adesão ao tratamento.